Amanhecer: Maria Aparecida e os limites da liberdade
Quando terminei de ler Amanhecer, de Lúcia Miguel Pereira, fiquei pensando em uma pergunta que talvez seja mais difícil do que parece: o que significava ser uma mulher independente no início do século XX?
Anne: autonomia, solidariedade feminina e investigação em Constance Fenimore Woolson
Há livros que parecem pertencer a uma época muito distante da nossa até que, de repente, uma passagem nos faz perceber o quanto determinadas questões permanecem atuais. Anne, de Constance Fenimore Woolson, é um desses livros. A princípio, podemos lê-lo como uma história de amor, de perdas e de dificuldades familiares. Mas, à medida que acompanhamos a trajetória de sua protagonista, percebemos que Woolson está interessada em algo mais complexo: a formação de uma mulher que, apesar das circunstâncias, procura construir a própria vida.
Na face das águas: um clássico esquecido sobre a Revolta Indiana de 1857
Eu nunca tinha ouvido falar de Flora Annie Steel até começar a procurar autoras para falar sobre elas em meu canal. Procurando escritoras do século XIX, o nome dela me apareceu, e seu romance, Na face das águas, era listado como seu livro mais importante. Resolvi ir atrás, procurar por ele, e o encontrei no Project Gutenberg, site absolutamente fantástico para quem procura livros de domínio público.
A Era da Inocência: entre Ellen Olenska e May Welland, duas formas de sobreviver
Em A Era da Inocência, Edith Wharton constrói um retrato minucioso de uma sociedade em que a aparência importa tanto — ou mais — do que a verdade. Por trás de bailes, jantares, vestidos e regras de etiqueta, existe um mundo rigidamente controlado, no qual homens e mulheres precisam aprender a representar os papéis que lhes são destinados. Mas, ao reler o romance, uma personagem que costuma permanecer em segundo plano chamou novamente minha atenção: May Welland. Talvez ela não seja tão ingênua quanto parece. E talvez compreender sua inteligência seja também uma maneira de compreender melhor a sociedade que Edith Wharton retratou.
O Moinho à beira do rio Floss: a história de Maggie Tulliver continua atual?
Quando eu fazia o curso de Letras, entre 1978 e 1982, embora com habilitação em Língua Inglesa e Literatura, não posso afirmar que li textos originais em inglês. Nossa professora de Literatura de Língua Inglesa, uma estadunidense que já morava há anos no Brasil, parecia não acreditar em nossa competência para ler textos complexos. Foi assim meu primeiro contato com O Moinho à beira do rio Floss, em 1982, meu último ano de curso.
Uma vítima, muitas tragédias
Há romances que nos apresentam um vilão e uma vítima. Outros, porém, tornam essa distinção cada vez mais difícil à medida que avançamos na leitura. Foi exatamente essa a sensação que tive ao ler Uma Vítima, de Maria Benedita Câmara Bormann (1853–1895), escritora brasileira que publicou parte de sua obra sob o pseudônimo Délia. Publicado no final do século XIX, o romance parte de um drama familiar para discutir temas como casamento, honra, dever e o lugar da mulher na sociedade. Mas, ao final da leitura, a pergunta que permanece é muito mais inquietante do que o próprio título parece sugerir: afinal, quem é, de fato, a vítima dessa história?
A luta de existir: lendo Carmen Dolores no século XXI
Confesso que nunca tinha ouvido falar de Carmen Dolores antes de encontrar A luta. E essa constatação talvez revele uma das muitas lacunas da história literária brasileira. Nascida Emília Moncorvo Bandeira de Melo (1852-1910), Carmen Dolores foi cronista, jornalista, contista e romancista, atuando em uma época em que a participação feminina na vida intelectual ainda encontrava inúmeras barreiras. Em seus textos, discutiu educação, costumes, relações familiares e, sobretudo, a condição da mulher em uma sociedade profundamente desigual.
Quando a cura adoece: maternidade, identidade e silêncio em O Papel de Parede Amarelo
Alguns livros permanecem atuais porque retratam conflitos universais. Outros atravessam o tempo porque revelam problemas que a sociedade ainda insiste em não enxergar. Publicado no final do século XIX, O Papel de Parede Amareloreúne as duas qualidades. Em poucas páginas, Charlotte Perkins Gilman constrói uma narrativa inquietante sobre maternidade, saúde mental, autonomia e o silenciamento das mulheres, levando o leitor a questionar até que ponto uma cura continua sendo cura quando exige o apagamento da identidade de quem sofre.
Maternidade sem apagamento: o despertar de Edna Pontellier
Há livros que envelhecem; outros parecem ficar cada vez mais atuais. Talvez isso aconteça porque suas autoras foram capazes de enxergar conflitos humanos muito antes de seu tempo. Foi o caso de Kate Chopin (1850–1904). Escrevendo no final do século XIX, quando as mulheres tinham pouca liberdade para definir seus próprios caminhos, ela criou personagens que questionavam as expectativas impostas ao casamento, à maternidade e à identidade feminina. Seu romance mais conhecido, The Awakening, causou escândalo quando foi publicado, em 1899. Mais de um século depois, porém, suas perguntas continuam ecoando entre leitores e leitoras que ainda se perguntam como conciliar amor, responsabilidade e autonomia.
George Sand, identidade e ruptura: um olhar sobre Gabriel
Falar de George Sand é entrar em contato com uma das vozes mais ousadas e inovadoras da literatura do século XIX. Nascida como Aurore Dupin, a autora adotou um pseudônimo masculino em uma época em que mulheres escritoras enfrentavam forte preconceito e pouca legitimidade no meio literário. Assinar como “George Sand” não foi apenas uma estratégia editorial — foi também um gesto de afirmação e liberdade.
As amazonas de Cranford: mulheres, cotidiano e comunidade em Elizabeth Gaskell
Elizabeth Gaskell (1810–1865) foi uma das grandes romancistas inglesas do século XIX, embora por muito tempo tenha permanecido relativamente à sombra de alguns de seus contemporâneos mais celebrados. Amiga e colaboradora de Charles Dickens, que publicou vários de seus textos na revista Household Words, Gaskell construiu ao longo de sua carreira uma obra marcada pela atenção à vida social inglesa e, em especial, às experiências femininas. Romances como Mary Barton e North and South abordam conflitos sociais ligados à industrialização, enquanto outros textos se voltam para universos mais domésticos e comunitários. Entre estes, destaca-se Cranford, talvez seu livro mais singular.
A Rainha do Ignoto e o Regionalismo Fantástico: quando o sertão encontra o extraordinário
Durante muito tempo, eu nunca tinha ouvido falar de A Rainha do Ignoto. Só descobri o romance em 2025 — e a sensação foi curiosa: como uma obra tão original da literatura brasileira podia ter passado tanto tempo fora do meu radar? Quanto mais eu lia, mais me impressionava a mistura de regionalismo, fantasia, crítica social e imaginação utópica. Aos poucos, fui percebendo que essa estranheza talvez seja justamente a força do livro: ele parece deslocado no seu próprio tempo, mas conversa de forma surpreendente com debates literários de hoje.
O Monstro mais Humano da Literatura
Mary Shelley (1797-1851) foi uma escritora britânica mais conhecida por ter criado Frankenstein (1818), uma obra que atravessou gerações ao misturar elementos de terror, filosofia e primórdios da ficção científica. Filha da filósofa Mary Wollstonecraft e do pensador William Godwin, Shelley cresceu em um ambiente intelectual que influenciou profundamente sua escrita. Sua obra reflete questões sobre os limites da ciência, a responsabilidade da criação e a natureza humana, temas que continuam atuais e que fazem dela uma das vozes mais importantes da literatura ocidental.
Olive Schreiner e The Story of an African Farm: um romance protofeminista
Olive Schreiner (1855-1920) foi uma escritora sul-africana cuja obra se destacou por desafiar abertamente as convenções sociais e de gênero do século XIX. Nascida na Colônia do Cabo, em um contexto marcado pelo colonialismo britânico e por estruturas profundamente patriarcais, Schreiner desenvolveu desde cedo uma visão crítica sobre o lugar da mulher na sociedade. Não por acaso, quando publicou A história de uma fazenda africana em 1883, escolheu fazê-lo sob o pseudônimo masculino Ralph Iron — uma estratégia comum entre mulheres escritoras da época para driblar o preconceito editorial e garantir que a obra fosse levada a sério.
Jean Rhys e a descolonização de Bertha Mason
Jean Rhys (1890–1979) nasceu na ilha de Dominica, no Caribe, então parte do Império Britânico, filha de mãe crioula e pai galês — uma origem que marcaria profundamente sua obra. Cresceu entre culturas, línguas e pertencimentos conflitantes, experiência que lhe deu uma percepção aguda das violências coloniais, das hierarquias raciais e da marginalização feminina.
Jane Eyre e a coragem de dizer não
Charlotte Brontë (1816-1855) é uma das mais famosas escritoras de língua inglesa, parte incontornável do cânone, lida e ensinada amplamente nos cursos de literatura. Dona de uma imaginação singular, produziu — juntamente com as irmãs Emily e Anne — livros que mudaram a história da literatura e moldaram leitores e leitoras ao longo de quase dois séculos.
A autora que eu não estudei na universidade — e que mudou minha visão de literatura
Pouca gente fora do Piauí conhece Alvina Gameiro — e isso sempre me pareceu uma injustiça difícil de explicar. Porque, para quem já percorreu suas páginas, é evidente que estamos diante de uma autora que merecia estar entre os grandes nomes da literatura brasileira. Alvina escreve com uma intensidade rara, com aquele tipo de verdade que só nasce de quem conhece profundamente o sertão, a dureza da terra e, sobretudo, a vida das mulheres que nele sobrevivem.
A força incômoda de “A Caolha”, de Julia Lopes de Almeida
Este texto propõe um breve reencontro com uma autora que a história literária brasileira tentou silenciar. Ao revisitar a trajetória de Julia Lopes de Almeida e a leitura de um de seus contos mais emblemáticos, abre-se espaço para refletir sobre apagamento, exclusão e a persistente atualidade de sua escrita.
Maria Firmina dos Reis: a voz que o Brasil esqueceu – e que precisamos ouvir
Durante toda a minha trajetória como estudante de Letras, o nome de Maria Firmina dos Reis me era totalmente desconhecido. Posso justificar essa ausência no mestrado e no doutorado, já que meu foco em ambos era literatura de língua inglesa. Mas como explicar isso na graduação, realizada entre 1978 e 1982?
Como escritoras moldaram a minha visão de mundo
Sempre amei literatura. Aprendi a ler tão jovem que não me lembro de minha vida antes da leitura. Cresci rodeada de livros – meu pai era professor, um leitor voraz, e sempre nos estimulava a ler. No entanto, não lembro de ter lido muitas mulheres na minha infância. Minhas primeiras leituras foram os Irmãos Grimm, Monteiro Lobato e Charles Perrault.
