
Olive Schreiner (1855-1920) foi uma escritora sul-africana cuja obra se destacou por desafiar abertamente as convenções sociais e de gênero do século XIX. Nascida na Colônia do Cabo, em um contexto marcado pelo colonialismo britânico e por estruturas profundamente patriarcais, Schreiner desenvolveu desde cedo uma visão crítica sobre o lugar da mulher na sociedade. Não por acaso, quando publicou A história de uma fazenda africana em 1883, escolheu fazê-lo sob o pseudônimo masculino Ralph Iron — uma estratégia comum entre mulheres escritoras da época para driblar o preconceito editorial e garantir que a obra fosse levada a sério.

O romance, ambientado em uma fazenda sul-africana, foge das narrativas vitorianas tradicionais. Em vez de seguir uma trama romântica convencional, Schreiner constrói um texto profundamente introspectivo, filosófico e crítico, no qual questões como religião, identidade, colonialismo e, sobretudo, a condição feminina ocupam lugar central.
É importante reconhecer que o livro utiliza um vocabulário que hoje é considerado ofensivo e problemático, especialmente no que diz respeito a raça e colonialismo. Ainda assim, quando observado em seu contexto histórico, A história de uma fazenda africana revela-se surpreendentemente avançado em sua reflexão sobre o papel social das mulheres, podendo ser lido como uma narrativa protofeminista.

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Ao longo do romance, Schreiner explicita a frustração diante das limitações impostas às mulheres e da hipocrisia com que essas restrições eram justificadas. Em um dos trechos mais contundentes, lemos:
Quando pedimos para ser médicas, advogadas, legisladoras — qualquer coisa além de serviçais mal pagas — eles dizem: NÃO; mas vocês têm a atenção cavalheiresca dos homens; pensem nisso e fiquem satisfeitas (Schreiner, 2026, p. 125).
Aqui, a autora denuncia a ideia de que gestos simbólicos de “cavalheirismo” seriam suficientes para compensar a exclusão sistemática das mulheres da educação, da política e do trabalho intelectual. O que se oferece às mulheres não é liberdade real, mas uma forma de consolação vazia.
Essa crítica se aprofunda quando Schreiner discute como o potencial feminino é apagado pela própria estrutura social. Em uma passagem particularmente longa e incisiva, a narradora propõe um exercício de imaginação histórica:
Você acha que, se Napoleão tivesse nascido mulher, ele teria se contentado em dar pequenos chás e falar de fofocas insignificantes? Ele teria se erguido; mas o mundo não teria ouvido falar dele como ouve agora — um grande homem, indulgente com todos os seus pecados. Ele teria deixado apenas um daqueles nomes que mancham as páginas de toda história — os nomes de mulheres que, tendo poder, mas sendo privadas do direito de exercê-lo abertamente, governam no escuro, de forma dissimulada e furtiva, por meio dos homens cujas paixões alimentam e pelos quais escalam posições (Schreiner, 2016, p. 227).
Nesse trecho, Schreiner expõe um paradoxo cruel: quando mulheres demonstram ambição, inteligência ou liderança, essas qualidades não são reconhecidas como grandeza, mas reinterpretadas como manipulação ou perversidade moral. A crítica não é apenas à exclusão das mulheres do poder formal, mas também à forma como a história registra — ou distorce — suas ações.
A autora também ironiza os argumentos usados para justificar essa exclusão. Quando as mulheres reivindicam liberdade plena, a resposta vem em forma de advertência “racional”:
Eles apresentam argumentos de peso contra nós quando pedimos a liberdade completa das mulheres (Schreiner, 2016, p. 127).
E um desses argumentos aparece de maneira quase caricatural:
Se as mulheres tiverem a liberdade que vocês pedem, elas acabarão ocupando posições para as quais não estão aptas! (Schreiner, 2016, p. 127).
A formulação ecoa discursos que, embora escritos no século XIX, continuam assustadoramente familiares. Schreiner não apenas registra essas falas, mas as expõe ao ridículo, revelando o medo subjacente de que a emancipação feminina desestabilize hierarquias consideradas “naturais”.
Assim, apesar de suas limitações históricas e linguísticas, A história de uma fazenda africana permanece uma obra fundamental para compreender as origens do pensamento feminista na literatura de língua inglesa. Olive Schreiner escreve a partir das margens — geográficas, sociais e de gênero — e transforma essa posição em um ponto privilegiado de observação crítica. Seu romance não oferece respostas fáceis, mas levanta perguntas que continuam ecoando: quem tem direito à liberdade, ao reconhecimento e à própria voz?
Como The Story of an African foi publicado em 1883 e está em domínio público, é possível acessar o texto completo em inglês gratuitamente aqui.
Por enquanto, não existe uma edição amplamente disponível em português no Brasil com preço acessível, então essa é a melhor opção para quem quer conhecer o romance na íntegra.
Leituras indicadas
Abaixo, alguns títulos que dialogam bem com o livro discutido acima. Ao clicar em cada título, você será direcionado ao texto em domínio público, quando for o caso, ou a um site de vendas, indicado apenas como referência — já que o livro pode ser adquirido na livraria de sua preferência.
Charlotte Brontë – Jane Eyre – um dos romances mais influentes do século XIX, com protagonista feminina forte e complexa que desafia as expectativas sociais da época.
Jane Austen — Orgulho e Preconceito — romance clássico sobre casamento, classe social e autonomia feminina.
Louisa May Alcott — Mulherzinhas — história das irmãs March enfrentando desafios pessoais e sociais no século XIX.
Mary Shelley — Frankenstein — embora seja muitas vezes lido como ficção gótica ou científica, esse romance também explora a agência e as limitações colocadas sobre as mulheres e sobre a criação e responsabilidade humana.
George Eliot — Middlemarch — um grande romance do século XIX, com uma perspectiva profunda sobre sociedade, gênero e ambições pessoais.
Elizabeth Gaskell — Cranford — uma narrativa que cruza humor, crítica social e observações sobre as expectativas femininas na Inglaterra vitoriana.

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