Pouca gente fora do Piauí conhece Alvina Gameiro — e isso sempre me pareceu uma injustiça difícil de explicar. Porque, para quem já percorreu suas páginas, é evidente que estamos diante de uma autora que merecia estar entre os grandes nomes da literatura brasileira. Alvina escreve com uma intensidade rara, com aquele tipo de verdade que só nasce de quem conhece profundamente o sertão, a dureza da terra e, sobretudo, a vida das mulheres que nele sobrevivem.

Logo nas primeiras páginas de Curral de Serras, por exemplo, a autora nos lembra dessa intimidade com o chão e com o ciclo da vida sertaneja: 

Desne que mundo é mundo que capim é cabelo da terra, cobertor do chão, esperança dos vivos e, quando cai chuva e ele verdece, é nem ver um bilhete de saudade… (1980, p. 9).

Quem foi Alvina Gameiro

GAMEIRO, Alvina. Curral de Serras, 3 ed. Teresina: APL, 2019, p. 5.

Alvina Fernandes Gameiro nasceu em Oeiras, Piauí, em 1917, a mesma cidade onde nasceu minha mãe. É impossível não sentir certa familiaridade ao ler seus textos — há neles uma respiração profunda do sertão piauiense, uma compreensão íntima de suas mulheres, seus silêncios e suas resistências. Essa respiração aparece em muitas passagens do romance, como na beleza das águas após a chuva: 

Mirei o buritizal começando se arracimar: os pés de pau apresentando as folhas lavadas, enxaguadas; o riacho transbordando por tudo quanto é de baixa (1980, p. 56).

Embora tenha sido uma das escritoras mais potentes do século XX no Piauí, Alvina permaneceu praticamente apagada dos currículos escolares e universitários. Na minha própria graduação em Letras, por exemplo, lembro-me de estudar apenas um outro escritor piauiense: Assis Brasil, com o ótimo Beira Rio, Beira Vida. Mas Alvina Gameiro não era sequer mencionada. Nenhum de seus livros. Nenhuma referência.

O encontro tardio — e transformador

Meu real encontro com sua obra veio muitos anos depois — e devo isso ao trabalho sério e emocionante de pesquisadoras como Profa. Dra. Algemira de Macedo Mendes e Profa. Dra. Olívia Candeia Lima Rocha, organizadoras do livro Antologia de Escritoras Piauienses (Século XIX à Contemporaneidade). Foi a partir desse esforço de resgate que descobri não só Alvina, mas toda uma tradição de autoras que simplesmente esteve ausente da minha formação acadêmica.

A potência literária de Alvina

Alvina escreveu romances, contos, poesia e até roteiros para televisão. Mas é com Curral de Serras (1980) que ela alcança seu auge criativo — um livro que, na minha opinião, é o melhor romance já escrito por uma autora piauiense. Um texto que combina força poética, densidade psicológica, crítica social e uma compreensão profunda da alma sertaneja. Essa força aparece, por exemplo, na maneira como ela descreve a paisagem e seus ritmos: 

Sariema largou gargalhada bem distante e inhuma quebrou soluço perto, chamando minha ‘tenção. Larguei visto no deredor, procurando e vi. ‘Tava lá, falando no afastado, descobrindo cama de brejo adonde inhuma se aninha, o montão de palmas verdes: buritizal de porte afirma, p’ra quem quiser confirmar, que finca pé no molhado, faz procissão com andor d’água e se abana com leque grande, o maior que palmeira pode gerar, com verdor do claro, por amor de gastar na cara de qualquer verão enfezado (1980, p. 12).

É por isso que escrevo sobre ela aqui: para que mais pessoas possam conhecer sua obra, sua voz e sua importância.

Curral de Serras: o livro que fica na pele

Falo dela com a segurança de quem leu muito do que ela publicou — e com a alegria de ter dedicado anos ao estudo de sua obra. E posso dizer sem hesitar: Curral de Serras é seu melhor romance. É daqueles livros que não se esquece, mesmo depois de muito tempo. Ele fica dentro da gente, como poeira fina grudada na pele.

Capa da primeira edição do livro Curral de Serras (1980) – GAMEIRO, Alvina. Curral de Serras. 3 ed/ Teresina: APL, 2019, p. 6.

O que mais me impressiona em Alvina é a maneira como ela transforma o sertão em personagem. Sua ficção não é “regionalismo” no sentido estreito; é mundo, é destino, é humanidade. Isso se vê na própria forma como a autora trata a relação entre a terra e a vida, como na passagem em que descreve o renascer das águas e da vegetação: 

Eu andava nestes dentros, apreciando a beleza que a água gera na terra (…) o sol que raiou bonito e faz dias não amostrava olho de fora a ninguém (1980, p. 56).

As mulheres de Alvina

Em Curral de Serras, os elementos do cotidiano sertanejo — a terra, a seca, o trabalho, a família, a tradição — não são apenas pano de fundo, mas forças que moldam vidas e esmagam resistências. E no centro de tudo isso estão as mulheres: complexas, fortes, vulneráveis, contraditórias. Mulheres que amam, que lutam, que sofrem, que sonham — e que raramente encontram espaço na literatura de sua época.

Só sei que ia chegando e avistei a Branca [Isabela], quase mocinha, abraçada com um trabuco, dando recado de balas desentaladas, com dança de sacolejo. […] Concluídos se tirou que o Corujão, devendo qualquer malfairo, esfaqueou seu Evaristo. Seu Servusdei achou ruim e quis impor disciplina, aí, também comeu faca; veio o pobre do meninote, tentando socorrer o pai, e morreu do mesmo jeito. Bem ali, o cafuz deu fé da moça, já de arma engatilhada, certinho no rumo dele e fez menção d’avançar, mas recebeu pronto, exato, lá nele, de justo, bem no tampão da cabeça, um furo que deu passagem p’ra valer mais nada não. Acho até que nem sentiu o resto do vazar d’arma, que o espírito do amaldiçoado tinha fugido do corpo (1980, p. 100).

Talvez seja isso que mais me toca: Alvina cria personagens femininas que não cabem nos rótulos fáceis. Elas pertencem à terra tanto quanto os homens, mas também a enfrentam de modos distintos, sempre negociando sobrevivência, dignidade e desejo. Uma das passagens mais marcantes é a da jovem Branca (Isabela), que reage com coragem à violência brutal que se derrama sobre sua família: 

Alvina não romantiza sua força: mostra-a como gesto extremo de defesa, como possibilidade de vida diante do que oprime.

Um apagamento que precisa ser reparado

É impossível não notar o apagamento que sua obra sofreu ao longo das décadas. Uma autora dessa potência, dessa profundidade, deveria ocupar um lugar muito mais alto no imaginário literário do país. E, ainda assim, permanece quase invisível para a maioria dos leitores. Cada vez que volto a Curral de Serras, sinto a mesma perplexidade: como é possível que uma voz como essa tenha sido tão pouco celebrada? Em tantas páginas, ela revela uma sensibilidade rara para a paisagem e seus símbolos, como quando escreve que o buritizal 

faz procissão com andor d’água e se abana com leque grande, o maior que palmeira pode gerar (1980, p. 12).

Essa poesia do cotidiano sertanejo merecia ser muito mais conhecida.

Talvez escrever sobre ela aqui — de forma simples, direta, pessoal — seja uma pequena maneira de reparar isso. De lembrar que a literatura brasileira é maior do que o que nos ensinaram a ver. E que, no meio da paisagem áspera do sertão piauiense, Alvina Gameiro construiu uma obra de uma beleza devastadora.

Por onde começar

Se você nunca leu Curral de Serras, recomendo que comece por ele. É um livro que mexe, que inquieta, que comove — e que revela uma das escritoras mais fortes que o Brasil já teve, mesmo que o Brasil ainda não tenha percebido.

Por ser uma obra fora de catálogo e de circulação restrita, Curral de Serras está hoje sobretudo preservado em acervos literários, como a Coleção Centenário da Academia Piauiense de Letras, que publicou o romance como parte de seu catálogo editorial. 

Se você tiver interesse, vale verificar o acervo da Academia, consultar bibliotecas públicas e universitárias ou buscar em sebos especializados — caminhos que, embora exijam alguma paciência, podem conduzir a um dos encontros mais recompensadores com a literatura brasileira.

O livro Antologia de Escritoras Piauienses (Século XIX à Contemporaneidade), organizado pelas Profa. Dra. Algemira de Macedo Mendes e Profa. Dra. Olívia Candeia Lima Rocha, pode ser adquirido aqui.

Em 2015, ao concluir meu curso de História, publiquei um livro no qual analiso os três romances de Alvina Gameiro. Você pode encontrá-lo à venda aqui.

Leituras Indicadas

Abaixo, alguns títulos que dialogam bem com o livro discutido acima. Ao clicar em cada título, você será direcionado ao texto em domínio público, quando for o caso, ou a um site de vendas, indicado apenas como referência — já que o livro pode ser adquirido na livraria de sua preferência.

Rachel de Queiroz – O Quinze – Romance fundamental sobre a seca nordestina, com atenção especial às mulheres atravessadas pela miséria, pela migração e pelas escolhas impossíveis.

Francisca Clotilde – A Divorciada – Escritora cearense do início do século XX, injustamente esquecida, que enfrentou tabus morais e sociais semelhantes aos demonstrados por Alvina.

Maria Firmina dos Reis – Úrsula – Romance abolicionista escrito por uma mulher negra em 1859. Um texto pioneiro e ainda pouco lido, essencial para pensar silenciamentos na literatura brasileira.

Emília Freitas – A Rainha do Ignoto – Romance ousado, político e visionário, escrito por uma autora cearense no século XIX, que mistura utopia, crítica social e protagonismo feminino.

Julia Lopes de Almeida – A Falência – Uma análise profunda da decadência social e moral da elite brasileira, com foco nas mulheres que pagam o preço do colapso.

Carolina Maria de Jesus – Quarto de despejo – Escrita nascida da urgência da sobrevivência, transformando a experiência cotidiana em literatura de impacto profundo.

Conceição Evaristo – Ponciá Vicêncio – Romance em que memória, corpo, deslocamento e silenciamento feminino se entrelaçam de forma poética e dolorosa.


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