
Quem é a vítima de Uma Vítima?
À primeira vista, a resposta parece simples. Lúcia, uma jovem que sacrifica o próprio futuro para impedir que o pai cometa um crime passional, seria a personagem que dá nome ao romance. Mas, ao longo da leitura, a pergunta se torna cada vez mais complexa. Afinal, vítima de quê? E será que apenas ela merece esse título?
Antes de falar sobre o romance, vale a pena apresentar sua autora. Maria Benedita Bormann (1853-1895), que publicou parte de sua obra sob o pseudônimo Délia, foi uma escritora brasileira que abordou temas considerados ousados para sua época, especialmente aqueles relacionados à condição feminina, ao casamento e às limitações impostas às mulheres pela sociedade do século XIX. Confesso que só a conheci no ano passado, durante minhas leituras de escritoras brasileiras oitocentistas. Até então, seu nome me era completamente desconhecido. E isso é uma pena. Embora tenha produzido uma obra significativa e tratado de questões que continuam surpreendentemente atuais, Maria Benedita Bormann permanece muito menos conhecida do que mereceria. Ler Uma Vítima foi, para mim, mais uma confirmação da importância de recuperar e divulgar a produção dessas mulheres que, por diferentes razões, acabaram sendo empurradas para as margens da nossa história literária.

Domínio público
A cada nova descoberta, fico me perguntando quantas outras escritoras importantes permanecem ausentes das listas de leitura, dos currículos escolares e das conversas sobre literatura brasileira.
Considerando que o romance foi publicado no final do século XIX, acredito que podemos vê-la como vítima de uma sociedade patriarcal, conservadora e profundamente hipócrita. Lúcia representa o ideal feminino de sua época: a mulher pura, virtuosa, dedicada à família, aquilo que hoje resumiríamos na expressão “bela, recatada e do lar”. Sua mãe, Melânia, por outro lado, é retratada como leviana, cruel e desumana. Em nenhum momento seus sentimentos parecem merecer compreensão; seus atos são sempre vistos pelo prisma da condenação moral, e seu desfecho trágico surge quase como uma punição por seus pecados.
Mas não seria Melânia também uma vítima daquela mesma sociedade? Uma mulher presa a um casamento sem amor, julgada por seus erros, mas cuja dor jamais é verdadeiramente considerada?
É importante lembrar que essa visão negativa da personagem parece partir do olhar do narrador e dos valores sociais presentes na narrativa. Como leitora, não consegui deixar de enxergar em Melânia uma mulher limitada pelas circunstâncias de seu tempo, alguém que fez escolhas equivocadas, sem dúvida, mas que também sofreu profundamente as consequências dessas escolhas.
Embora a narrativa costume apresentá-la sob uma luz desfavorável, existem momentos em que sua humanidade emerge com força. Pouco antes do casamento de Lúcia, vemos uma mulher consumida pela culpa e pela angústia: “Lúcia apresentou a face à mãe e descorou, notando a palidez daquele semblante torturado pela vigília. Melania enrubesceu ao beijar a fronte fresca e serena da donzela.” Pela primeira vez, Melânia contempla a beleza da filha sem invejá-la: “Pela primeira vez, admirou com verdadeira satisfação a deslumbrante formosura da filha e não invejou a quietação daquele rosto aveludado, róseo, de infantil frescura.” Ao mesmo tempo, dirige a Rodolfo um olhar carregado de censura, enquanto ele, incapaz de sustentar aquele confronto, baixa os olhos. Nessa cena, mais do que uma pecadora castigada por seus erros, vejo uma mulher dilacerada pelas consequências de seus atos.
O pai de Lúcia, por sua vez, parece completamente alheio ao sofrimento da filha e, em determinado momento, chega a duvidar de sua pureza e dignidade ao perceber que ela está apaixonada por um homem que não é seu marido. Embora a ame profundamente, ele não a vê como um ser humano capaz de errar, mas como alguém a ser admirado e idealizado. Isso fica evidente em diversos momentos da narrativa:
“Na Europa a idolatria de Caetano pela filha não se alterou: levava-a, pelo braço, aos jardins, aos museus, aos ateliers modernos, comentando e fazendo-lhe notar todas as maravilhas, com seu espírito artístico, sentindo verdadeira ventura na afinidade dos seus gostos e apreciações” (p. 15).
Justamente por vê-la como uma espécie de ideal feminino, Caetano parece incapaz de compreender as dores que atravessam a alma da filha, que também o idolatra.
Quando finalmente descobre as razões do sofrimento de Lúcia, algo parece mudar. Um véu se desfaz diante de seus olhos, e ele passa a enxergar não apenas a filha perfeita que imaginava conhecer, mas também a mulher que sacrificou a própria felicidade por amor a ele. Nesse momento de profunda angústia, não se torna ele também vítima daquela mesma estrutura social que o privilegia por ser homem? Obrigado a conviver com a traição da esposa e com a presença constante do homem que participou dela, ele se vê preso a uma situação que não consegue aceitar nem transformar.
Mas a maior crueldade da narrativa talvez recaia sobre a própria Lúcia. Durante anos, ela acredita que seu sofrimento teve um propósito: preservar a tranquilidade do pai. Apenas no final descobre que seu sacrifício foi inútil. Como revela o narrador, Caetano, antes de morrer, confessara conhecer “o terrível segredo”, destruindo “o consolo que a infeliz sentia, por se haver sacrificado pela tranquilidade paterna”. Se Lúcia já era vítima das circunstâncias que a levaram a renunciar à própria felicidade, torna-se duplamente vítima ao perceber que a renúncia não impediu a tragédia que pretendia evitar. Não apenas sofre: sofre inutilmente.
Rodolfo, amante de Melânia e posteriormente marido de Lúcia, é outro personagem marcado pela tragédia. Ao seduzir uma mulher casada, contribui diretamente para os acontecimentos que se seguem. Ainda assim, não é ele quem carrega o maior peso da condenação moral. Se sua relação com Melânia viesse a público, provavelmente encontraria compreensão ou indulgência entre seus pares, enquanto ela seria apontada como a única culpada.
Lúcia aceita casar-se com Rodolfo acreditando que, assim, evitará uma tragédia maior. Em sua visão, o casamento impediria que o pai descobrisse a traição da mãe e cometesse um ato irreparável. O matrimônio surge, portanto, não como a realização de um desejo, mas como um ato de renúncia. A própria narrativa deixa isso explícito ao afirmar que a jovem, diante da cerimônia, “oferecia a Deus, naquele momento, o seu supremo sacrifício”.
O mais interessante é que o sofrimento não pertence apenas a Lúcia. Ao perceber a dimensão da renúncia que ela está fazendo, Rodolfo é tomado por um sentimento inesperado: “Então Rodolfo sentiu ardente desejo de lhe restituir a liberdade e desaparecer para sempre, deixando-a viver tranquila, e animada nos braços do pai.” Nesse momento, o homem que havia participado da origem da tragédia também se vê aprisionado por ela. Sem justificar seus erros, é impossível não reconhecer que ele também sofre e que sua dor nasce, em parte, das mesmas convenções sociais que o favorecem.
Por último, temos Máximo, talvez o personagem mais íntegro da narrativa. Apaixonado por Lúcia, ele jamais declara seus sentimentos, respeitando sua condição de mulher casada. Ainda assim, seu sofrimento é profundo, sobretudo quando compreende as razões da tristeza constante que sempre percebeu no semblante da mulher amada. Também ele é vítima de um mundo que transforma o amor em impossibilidade e que nega às pessoas a liberdade de escolher seus próprios caminhos.
Ao final da leitura, percebi que o título do romance talvez seja uma provocação. Afinal, quem é a vítima? Lúcia, que sacrifica a própria felicidade por uma causa perdida? Melânia, presa a um casamento sem amor? Caetano, destruído pela descoberta da verdade? Rodolfo, condenado a amar uma mulher que o despreza? Ou Máximo, que jamais pode viver o amor que sente?
Talvez a resposta seja que todos eles são vítimas, cada um à sua maneira. Não porque sejam inocentes — alguns cometem erros graves —, mas porque vivem em uma sociedade que transforma o amor em dever, o desejo em culpa e as mulheres em símbolos de pureza ou pecado, sem lhes permitir existir como seres humanos complexos. Foi essa percepção que tornou a leitura tão dolorosa para mim. Ao fechar o livro, não encontrei vilões absolutos nem heróis perfeitos. Encontrei apenas pessoas tentando sobreviver às consequências de suas escolhas dentro de um mundo que lhes oferecia poucas alternativas. E talvez seja justamente por isso que a tragédia de Lúcia, e de todos os demais personagens, continue tão comovente mais de um século depois de ter sido escrita.
Se esta leitura despertou seu interesse pelas vozes femininas da literatura brasileira e por romances que questionam as convenções sociais, as obras abaixo podem ser excelentes companheiras de leitura.
Ao clicar em cada título, você será direcionado ao texto em domínio público, quando for o caso, ou a um site de vendas, indicado apenas como referência — já que o livro pode ser adquirido na livraria de sua preferência.
Maria Firmina dos Reis — Úrsula (1859): outro romance brasileiro do século XIX que questiona estruturas de opressão, especialmente a escravidão e a condição feminina.
Júlia Lopes de Almeida — A Falência (1901): examina casamento, moralidade e o lugar da mulher em uma sociedade em transformação.
Kate Chopin — O Despertar (1899): uma das mais importantes reflexões sobre casamento, desejo e autonomia feminina na literatura de língua inglesa.
George Eliot — The Mill on the Floss (O Moinho às Margens do Rio Floss): Maggie Tulliver também é uma personagem cuja vida é moldada por expectativas sociais e familiares, tema que atravessa seu texto.
Charlotte Perkins Gilman — O Papel de Parede Amarelo (1892): uma narrativa curta, mas poderosa, sobre os efeitos das restrições impostas às mulheres.
Maria José Dupré — Éramos Seis (1943): embora posterior, também retrata o peso dos deveres familiares e dos sacrifícios femininos.

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