
Quando terminei de ler Amanhecer, de Lúcia Miguel Pereira, fiquei pensando em uma pergunta que talvez seja mais difícil do que parece: o que significava ser uma mulher independente no início do século XX?
É uma pergunta importante porque seria muito fácil ler Maria Aparecida com os olhos de hoje e julgá-la a partir de uma ideia contemporânea de emancipação feminina. Mas a personagem vive em um mundo no qual as possibilidades abertas às mulheres são muito mais restritas. O casamento ainda ocupa um lugar central na vida feminina, a dependência econômica é uma realidade para muitas mulheres e a moral sexual estabelece para elas regras muito mais rígidas do que para os homens.
Nesse contexto, desejar independência já é uma forma de transgressão.
Mas há algo ainda mais interessante em Amanhecer: não é Maria Aparecida quem formula as ideias mais ousadas sobre a condição feminina. É Antônio.
E isso muda bastante a leitura do romance.

O homem que questiona os valores de seu tempo
É Antônio quem questiona a moral sexual, a virgindade como valor feminino, a necessidade do casamento e a dependência econômica da mulher.
Em determinado momento, ele explica:
“a independência moral vem da econômica, explicara Antônio: um homem que tem fome é um escravo, uma mulher que depende do marido para comprar um par de meias é uma escrava”.
A frase é extremamente significativa.
Para Antônio, a dependência econômica limita a liberdade moral. Uma mulher que precisa do marido para satisfazer até mesmo suas pequenas necessidades materiais não pode ser plenamente independente, porque sua sobrevivência está vinculada à vontade de outro.
Em outra passagem, ele questiona ainda mais profundamente a moral sexual de seu tempo:
“A virgindade – como me envergonhou ouvir dele essa palavra! –, o casamento eram preconceitos. Preconceito burguês a noção de honra feminina. O prazer é desfrutado tanto pela moça como pelo rapaz; não há culpa para aquela nem responsabilidade para este. Deviam ser dois parceiros, não emprestando gravidade a coisas que não a tinham.”
É um discurso bastante avançado.
Antônio rejeita a ideia de que homens e mulheres devam obedecer a códigos morais diferentes. Questiona a associação entre virgindade e honra feminina. E imagina uma relação entre homens e mulheres baseada na ideia de parceria.
Não seria necessário, portanto, que uma mulher se casasse para legitimar sua sexualidade. Nem que o homem tivesse uma liberdade que lhe fosse negada.
Em princípio, Antônio parece compreender algo que a sociedade ao seu redor ainda não compreende.
Mas é justamente aí que Lúcia Miguel Pereira começa a complicar as coisas.
O que Aparecida faz com essas ideias?
Maria Aparecida vive em contato com esse pensamento. E uma das questões mais interessantes do romance é observar o que acontece quando essas ideias deixam de ser apenas uma teoria e começam a interferir na vida concreta de uma mulher.
Aparecida quer não precisar de um marido “como de arrimo”.
Essa expressão é pequena, mas importante.
Ela não significa necessariamente que Aparecida rejeite o amor ou a possibilidade de se casar. O que ela não quer é que o casamento seja uma necessidade material. Quer poder escolher um homem sem depender dele para sobreviver.
É aqui que a ideia de Antônio sobre independência econômica adquire uma dimensão concreta.
Mas há uma diferença entre não precisar de um homem como arrimo e não precisar emocionalmente de um homem.
E é justamente nessa diferença que a personagem começa a se tornar complexa.
Aparecida se apaixona.
E o romance passa então a mostrar que a conquista da autonomia em uma dimensão da vida não significa automaticamente a conquista da autonomia em todas as outras.
Ela pode não querer depender de um marido para viver e, ainda assim, depender profundamente do homem que ama para se sentir emocionalmente segura, reconhecida ou correspondida.
Isso não torna seu desejo de independência falso.
Mas mostra que a liberdade é mais complicada do que simplesmente ter dinheiro ou não ter marido.
Quando a teoria encontra a mulher concreta
É aqui que Antônio se torna, para mim, uma das figuras mais interessantes do romance.
Porque ele defende ideias bastante avançadas sobre as mulheres.
Mas será que consegue conviver com as consequências dessas próprias ideias?
Em determinado momento, ele diz a Aparecida:
“Vá a gente querer meter ideias em cabeça de mulher… As diferenças de classe são odiosas e convencionais, mas as individuais são verdadeiras, ao menos no nosso regime. Você está sofismando, ou confundindo alhos com bugalhos… Case com o conferente, se precisa com essa urgência de um homem, mas não se valha para isso das minhas ideias. As mulheres são todas iguais, querem é um marido, seja como for. Pensei que você fosse diferente, Aparecida, pensei que me compreendesse, pensei fazer de você minha amiga, alguém com quem pudesse conversar…”
É uma passagem extraordinária porque revela uma contradição em Antônio.
Ele havia defendido a liberdade feminina. Havia criticado os preconceitos relacionados à virgindade e ao casamento. Havia dito que homens e mulheres deveriam ser parceiros.
Mas, quando Aparecida toma uma decisão que ele não aprova, surge outra voz.
“As mulheres são todas iguais, querem é um marido, seja como for.”
É quase como se o discurso emancipador encontrasse ali o seu limite.
Enquanto Antônio fala sobre as mulheres, ele consegue assumir uma posição bastante progressista.
Quando precisa lidar com uma mulher concreta, que tem desejos e escolhas diferentes daqueles que ele esperava, a situação muda.
E essa diferença é muito importante.
A mulher independente que precisa ser compreendida
Há algo especialmente revelador na frase:
“Pensei que você fosse diferente, Aparecida, pensei que me compreendesse, pensei fazer de você minha amiga, alguém com quem pudesse conversar…”
Por que ele se decepciona tanto?
Porque Aparecida não é apenas uma mulher por quem ele se interessa. Ela é, para ele, uma mulher que parece compartilhar suas ideias, uma espécie de interlocutora intelectual.
Ele a considera diferente das outras.
Mas existe uma pergunta incômoda aí: diferente em que sentido?
Talvez Antônio admire uma mulher que pense, desde que aquilo que ela pensa continue dentro dos limites que ele consegue aceitar.
Essa é uma contradição que não precisa ser atribuída exclusivamente a Antônio como indivíduo. Ela é também reveladora de uma situação histórica mais ampla.
É possível defender a emancipação das mulheres em teoria e ainda conservar, no plano afetivo, expectativas profundamente tradicionais sobre elas.
É possível desejar uma mulher inteligente e independente e, ao mesmo tempo, esperar que ela faça escolhas que confirmem aquilo que desejamos dela.
É possível defender a liberdade feminina e não estar preparado para a liberdade de uma mulher específica.
E Lúcia Miguel Pereira parece perceber muito bem essa contradição.
Afinal, o que significa ser independente?
É nesse ponto que acho que Amanhecer se torna especialmente interessante para uma leitora do século XXI.
Hoje podemos pensar na independência feminina em termos que não estavam disponíveis para as mulheres do início do século XX: formação profissional, trabalho remunerado, autonomia financeira, liberdade sexual, direito ao divórcio, possibilidade de viver sozinha, de escolher não casar, de escolher ter ou não ter filhos.
Mas Maria Aparecida não dispõe de todas essas possibilidades.
Por isso, precisamos ter cuidado ao avaliá-la.
Ela não precisa ser uma mulher “liberada” segundo os nossos padrões para que seu desejo de autonomia seja significativo.
Na verdade, talvez o romance seja justamente sobre uma mulher tentando descobrir o significado da liberdade em um mundo que ainda não lhe oferece muitas possibilidades de exercê-la.
E há uma ironia nisso.
As ideias de Antônio ajudam a ampliar o horizonte de Aparecida. Ele lhe apresenta uma maneira diferente de pensar as relações entre homens e mulheres. Mas, quando ela começa a ocupar esse espaço de liberdade, ele próprio parece ter dificuldade em aceitar a mulher que emerge daí.
Aparecida aprende com Antônio a questionar certas convenções.
Mas talvez, no processo, ela também precise aprender a não depender dele para definir o que significa ser livre.
A dependência emocional
E é aqui que está, para mim, a grande questão de Maria Aparecida.
Ela deseja independência, mas se torna emocionalmente dependente do homem por quem se apaixonou.
Isso não significa que sua independência econômica ou intelectual seja uma mentira. Significa que a autonomia não é uma conquista única e definitiva.
Podemos ser independentes em uma dimensão e dependentes em outra.
Podemos ganhar nosso próprio dinheiro e ainda precisar desesperadamente da aprovação de alguém.
Podemos rejeitar um casamento por necessidade e ainda desejar um casamento por amor.
Podemos não querer ser sustentadas por uma pessoa e, ao mesmo tempo, entregar a ela uma parcela enorme do nosso equilíbrio emocional.
Talvez seja justamente isso que torna Maria Aparecida tão humana.
Ela não é uma heroína feminista perfeita.
E ainda bem.
Lúcia Miguel Pereira não parece interessada em criar uma personagem que sirva como modelo de comportamento. Ela parece muito mais interessada em mostrar as dificuldades, as contradições e os limites do processo de emancipação feminina.
O limite de Antônio — e o aprendizado de Aparecida
Há, portanto, dois movimentos acontecendo simultaneamente no romance.
De um lado, Antônio questiona os valores de seu tempo e apresenta a Aparecida ideias que ampliam a possibilidade de imaginar uma relação mais igualitária entre homens e mulheres.
De outro, quando Aparecida não corresponde àquilo que ele esperava, ele próprio revela que também está preso a algumas das convenções que critica.
Isso não torna suas ideias falsas.
Mas torna o personagem mais complexo.
E talvez seja justamente essa complexidade que Lúcia Miguel Pereira queira nos mostrar: ninguém está completamente fora da sociedade em que vive, nem mesmo aqueles que conseguem enxergar seus preconceitos.
Antônio pode perceber a injustiça de uma determinada estrutura e, ainda assim, reproduzir outra.
Aparecida pode desejar liberdade e, ainda assim, tornar-se dependente emocionalmente.
Nenhum dos dois consegue escapar completamente das contradições de seu tempo.
Por que ler Amanhecer hoje?
Talvez seja por isso que Amanhecer continue sendo uma leitura tão interessante.
Não porque Maria Aparecida seja uma espécie de feminista avant la lettre que devamos transformar em heroína.
Nem porque Antônio seja simplesmente um homem progressista que, em determinado momento, decepciona a mulher que ama.
O romance é mais complexo do que isso.
Ele nos mostra pessoas tentando compreender relações entre homens e mulheres que estavam começando a mudar, mas que ainda eram profundamente marcadas pelas convenções de sua época.
E nos obriga a pensar em uma pergunta que continua atual:
o que significa, afinal, ser uma mulher independente?
Ter dinheiro próprio é importante.
Não depender de um marido como arrimo é importante.
Ter liberdade para escolher com quem viver e como viver é importante.
Mas independência também significa poder construir uma identidade que não dependa inteiramente do olhar de outra pessoa.
E talvez essa seja a lição mais interessante que podemos tirar de Maria Aparecida: a liberdade não termina quando deixamos de depender economicamente de alguém. Talvez seja justamente aí que comece uma parte muito mais difícil dela.
Maria Aparecida quer ser livre.
Antônio lhe mostra algumas possibilidades dessa liberdade.
Mas é ela quem terá de descobrir, com seus próprios erros e contradições, o que fazer com ela.
E talvez seja exatamente por isso que sua história ainda nos interessa.

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