Meu livro favorito continua sendo Jane Eyre. Nenhum romance ocupa na minha vida o lugar que ele ocupa. Mas existe outro livro que mora em meu coração de uma forma diferente — e sei que vai morar lá para sempre: Frankenstein.

Acabei de relê-lo mais uma vez. Provavelmente já o li umas trinta vezes. E, como sempre acontece, terminei o livro emocionada.

Talvez porque Frankenstein não seja apenas uma história de terror. É uma história sobre abandono, responsabilidade e sobre a linha inquietante que separa o humano do monstruoso.

E talvez também porque seja impossível não se espantar com um fato: Mary Shelley começou a escrever esse romance quando tinha apenas dezoito anos.

Isso, por si só, já seria extraordinário.

Uma jovem escritora e um romance imortal

Retrato de Mary Shelley (1840) – Richard Rothwell / Domínio Público

Mary Shelley foi uma escritora britânica do século XIX, mais conhecida por ter criado Frankenstein (1818), uma obra que atravessou gerações ao misturar elementos de horror, filosofia e os primórdios da ficção científica. Filha da filósofa Mary Wollstonecraft e do pensador William Godwin, Shelley cresceu em um ambiente intelectual que influenciou profundamente sua escrita. Sua obra reflete questões sobre os limites da ciência, a responsabilidade da criação e a natureza humana, temas que continuam atuais e fazem dela uma das vozes mais importantes da literatura ocidental.

A ideia de Frankenstein surgiu em 1816, durante um verão chuvoso às margens do lago de Genebra. Presos dentro de casa por causa do mau tempo, um grupo de jovens decidiu fazer um desafio: cada um deveria escrever uma história de terror.

Entre eles estavam Lord Byron, Percy Bysshe Shelley e o médico John Polidori. A mais jovem do grupo era Mary Shelley.

Dessa brincadeira literária surgiriam duas obras marcantes da literatura fantástica: Frankenstein e The Vampyre, escrito por Polidori.

Mary Shelley tinha apenas dezoito anos quando imaginou a história do cientista que cria vida e depois abandona aquilo que criou. O romance seria publicado em 1818. Mais de dois séculos depois, continua sendo um dos livros mais perturbadores já escritos.

Frankenstein, 1831, capa interna.
Theodor von Holst, Public domain, via Wikimedia Commons

A criatura criada por Victor Frankenstein costuma ser lembrada apenas por sua aparência grotesca. Mas o romance de Mary Shelley faz algo muito mais interessante: ele nos obriga a ouvir o monstro.

E quando o ouvimos, descobrimos que ele pensa, lê e reflete sobre sua própria existência.

Em um momento marcante do livro, a criatura compara sua situação com a de Adão e de Satã em Paradise Lost:

Tal como Adão, eu não era ligado por qualquer elo a outro ser existente, mas suas condições eram bem diversas das minhas em todos os sentidos. Ele fora produzido pelas mãos de Deus como criatura perfeita e feliz, sob a proteção de seu Criador; tinha a faculdade de comunicar-se com seres de natureza superior e beber-lhes o conhecimento, mas eu era desgraçado, desamparado e só. Muitas vezes considerei Satã como um símbolo mais adequado à minha condição (Shelley, 2005, p. 127).

A criatura compreende algo essencial: Adão teve um criador que cuidou dele. Ela, não.

O problema de sua existência não é apenas sua aparência. É o abandono.

A pergunta que atravessa o romance

Em determinado momento, dirigindo-se diretamente a Victor, ela faz uma pergunta devastadora:

Mas por que formou um monstro tão pavoroso, que até mesmo você se afastou de mim com repulsa? (Shelley, 2005, p. 127).

É difícil não sentir o peso dessa pergunta.

Victor Frankenstein conseguiu realizar algo extraordinário: criar vida. Mas falhou em algo muito mais fundamental — assumir responsabilidade por aquilo que criou.

O desejo mais simples

O que torna a criatura ainda mais trágica é que ela não deseja poder ou vingança. O que ela pede é algo muito mais simples:

Você deve criar para mim uma fêmea, com a qual eu possa viver no decorrer de minha existência (Shelley, 2005, p. 138).

Ela imagina uma vida afastada dos homens, vivendo da natureza:

Meu alimento não é o mesmo que o do homem. Não preciso destruir a rês ou o cordeiro para satisfazer meu apetite. O que preciso para meu sustento, tiro da terra. Minha companheira será de natureza igual à minha… Faremos de folhas secas nossas camas. O sol brilhará sobre nós como sobre o homem (Shelley, 2005, p. 139-140).

O que ela deseja não é grandeza. É pertencimento.

A tragédia do abandono

Somente muito tarde Victor Frankenstein reconhece a dimensão de seu erro:

Num acesso de desmedido entusiasmo, criei uma criatura racional e cabia-me, dentro do limite dos meus poderes, assegurar-lhe a felicidade e o bem-estar (Shelley, 2005, p. 202).

Esse reconhecimento chega tarde demais. O abandono inicial já havia moldado o destino de ambos.

O momento mais humano do romance

Talvez a frase mais dolorosa de todo o livro seja a confissão da própria criatura:

Eu fui criado para o amor e para a piedade. E quando, cruelmente desviado pela maldade e pela injúria, atirei-me ao mal, meu coração sentiu […] a tortura dessa mudança (Shelley, 2005, p. 204).

Com essa frase, Mary Shelley realiza uma inversão radical. A criatura considerada monstruosa revela sensibilidade, consciência moral e desejo de afeto.

A monstruosidade não aparece como essência. Ela aparece como consequência.

Uma história dentro de outra história

Há ainda outro elemento que torna Frankenstein um romance extraordinário: sua estrutura narrativa.

A história é contada em camadas. O livro começa com as cartas de Robert Walton. Dentro dessas cartas, Victor Frankenstein narra sua história. E, dentro da narrativa de Victor, ouvimos o relato da própria criatura.

É literalmente uma história dentro de uma história dentro de outra história.

Essa estrutura tem um efeito poderoso: o leitor é obrigado a ouvir a voz do monstro.

E quando finalmente o escutamos, percebemos algo desconfortável.

Talvez ele seja o personagem mais humano de todo o romance.

A pergunta que permanece

Mais de duzentos anos depois, Frankenstein continua nos deixando com uma pergunta incômoda.

Se a criatura é capaz de reflexão, sofrimento e desejo de amor, e se o criador é incapaz de assumir responsabilidade por aquilo que fez… quem é realmente o monstro?

Talvez seja por isso que continuo voltando a esse romance extraordinário. Já o li dezenas de vezes e sei que voltarei a ele muitas outras. Porque, a cada leitura, Frankenstein me lembra de algo inquietante: às vezes o monstro não é aquele que nasce diferente — mas aquele que se recusa a reconhecer a humanidade do outro.

Leituras indicadas

Se Frankenstein nos leva a refletir sobre o que significa ser humano — e sobre como a sociedade pode transformar alguém em “monstro” — muitas outras escritoras também exploraram esse território inquietante.

Ao clicar em cada título, você será direcionado ao texto em domínio público, quando for o caso, ou a um site de vendas, indicado apenas como referência — já que o livro pode ser adquirido na livraria de sua preferência.

• Jane Eyre — Charlotte Brontë
Meu romance favorito e um dos grandes livros da literatura inglesa. A figura de Bertha Mason, escondida no sótão de Thornfield Hall, levanta questões perturbadoras sobre exclusão, loucura e sobre quem decide o que é normal ou monstruoso.

• A mão esquerda da escuridão — Ursula K. Le Guin
Um dos romances mais extraordinários da ficção científica. Le Guin explora identidade, alteridade e empatia ao imaginar uma sociedade em que o gênero não é fixo. Como em Frankenstein, o leitor é convidado a olhar para o “outro” de uma forma completamente nova.

• Amada — Toni Morrison
Um romance profundo e perturbador sobre memória, trauma e humanidade. A presença fantasmagórica que atravessa o livro funciona quase como uma materialização do passado — algo que também ecoa o peso moral que percorre Frankenstein.

• O Conto da Aia — Margaret Atwood
Uma reflexão perturbadora sobre até que ponto uma sociedade pode desumanizar indivíduos quando passa a tratá-los apenas como instrumentos.

• Kindred: Laços de Sangue — Octavia E. Butler
Um romance extraordinário sobre história, responsabilidade e empatia. Butler explora o que acontece quando a humanidade do outro é negada.

• Os Mistérios de Udolpho — Ann Radcliffe
Um dos grandes clássicos do romance gótico. Publicado em 1794, ajudou a definir muitos dos elementos que se tornariam característicos do gênero: castelos isolados, atmosferas sombrias e protagonistas perseguidas por forças aparentemente misteriosas.

• O Italiano — Ann Radcliffe
Outro romance marcante de Radcliffe, mais sombrio e intenso. A figura do vilão Schedoni é uma das mais fascinantes da literatura gótica.

• A Abadia de Northanger — Jane Austen
Uma deliciosa paródia dos romances góticos que eram extremamente populares na época. Austen brinca com os exageros do gênero ao mesmo tempo em que demonstra grande carinho por ele.

• A assombração da Casa da Colina — Shirley Jackson
Um dos romances de terror psicológico mais extraordinários do século XX. Jackson transforma uma casa assombrada em um estudo profundo de solidão, medo e fragilidade humana.

• Rebecca — Daphne du Maurier
Um romance gótico moderno em que a atmosfera de Manderley e a presença constante da ausente Rebecca criam uma história de suspense, memória e identidade.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *