Li A Era da Inocência em 2001, durante meu doutorado em Letras, em uma disciplina dedicada às relações entre literatura e cinema. Além do romance de Edith Wharton, assistimos à adaptação dirigida por Martin Scorsese, lançada em 1993.

Entre as muitas lembranças daquele semestre, uma permanece especialmente viva. Nossa professora chamou a atenção para a sequência de abertura do filme, em que uma delicada renda aparece diante das personagens. Segundo ela, aquela renda funcionava como uma metáfora visual da sociedade retratada por Wharton: um mundo em que as aparências encobrem a realidade e em que quase tudo é filtrado pelos códigos de comportamento da alta sociedade.

Na época, essa observação me pareceu interessante. Hoje, relendo minhas anotações e pensando novamente no romance, percebo que ela resume de maneira admirável o universo criado por Edith Wharton.

Mas, curiosamente, o aspecto que mais me marcou não foi aquele que costuma aparecer nas leituras mais conhecidas da obra. Foi uma personagem sobre a qual quase sempre se fala muito pouco: May Welland.

Edith Wharton
By E. F. Cooper, Newport, Rhode Island – Beinecke Rare Book & Manuscript Library, Yale University.
Public Domain

Edith Wharton: uma observadora de seu próprio mundo

Edith Wharton (1862–1937) nasceu em uma das famílias tradicionais da alta sociedade de Nova York. Diferentemente de muitos escritores que observam determinado grupo social de fora, ela conhecia profundamente aquele universo. Cresceu entre famílias aristocráticas, participou de seus rituais e compreendia perfeitamente seus códigos de comportamento.

Talvez por isso seus romances revelem uma precisão impressionante na descrição das convenções sociais. Wharton não se limita a retratar vestidos elegantes, bailes e jantares sofisticados. Seu verdadeiro interesse está nos mecanismos invisíveis que regulam aquela sociedade: o peso da reputação, o controle exercido pelas aparências e a necessidade permanente de representar um papel.

Em 1921, tornou-se a primeira mulher a receber o Prêmio Pulitzer de Ficção justamente por The Age of Innocence, romance publicado no ano anterior e considerado sua obra-prima.

A Nova York da Era Dourada

Embora publicado em 1920, o romance se passa na Nova York da década de 1870, período conhecido como Gilded Age— a chamada Era Dourada norte-americana.

Era uma sociedade profundamente hierarquizada. As antigas famílias nova-iorquinas, conhecidas como Old New York, preservavam cuidadosamente sua posição social por meio de um rígido conjunto de normas de etiqueta e comportamento. A reputação era um patrimônio tão importante quanto a fortuna.

Ao mesmo tempo, esse mundo começava a mudar. O crescimento industrial produzia novas fortunas, alterava o equilíbrio entre as classes sociais e ameaçava a estabilidade daquela aristocracia tradicional.

É justamente nesse momento de transição que Edith Wharton ambienta sua narrativa.

Mas o que mais chama atenção não é apenas o contraste entre tradição e modernidade. É a forma como essa sociedade transforma a aparência em valor absoluto. O problema não é necessariamente cometer um erro; o problema é permitir que ele se torne público. O silêncio, a discrição e a manutenção das convenções importam mais do que a verdade.

920 first edition – By Unknown author
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Ellen Olenska e May Welland: duas respostas para o mesmo mundo

Grande parte das leituras de The Age of Innocence concentra-se na relação entre Newland Archer e a Condessa Ellen Olenska. Embora esse romance seja importante para a narrativa, sempre me interessou muito mais o contraste entre as duas principais personagens femininas.

Ellen costuma ser vista como a mulher que desafia as convenções. Separada do marido, deseja o divórcio, veste-se de maneira pouco convencional e demonstra uma independência que escandaliza a sociedade nova-iorquina. Sua simples presença coloca em evidência aquilo que aquele mundo procura esconder: a possibilidade de uma mulher viver segundo suas próprias escolhas.

Mas há algo que me chama ainda mais atenção. Por trás dessa aparente ousadia existe uma personagem profundamente solitária. Ellen sabe exatamente quais são as regras daquela sociedade. Ela conhece o preço da transgressão e, justamente por isso, compreende que, em determinados momentos, a única forma de preservar aqueles que ama é retirar-se de cena.

May Welland, por outro lado, costuma ser apresentada como uma jovem inocente, ingênua e pouco consciente do que acontece à sua volta. Confesso que nunca consegui enxergá-la dessa maneira.

Para mim, May é uma das personagens mais inteligentes do romance.

Ela compreende perfeitamente o funcionamento daquela sociedade e domina seus códigos com extraordinária habilidade. Nunca enfrenta diretamente as convenções; ao contrário, utiliza-as em seu próprio benefício. Suas palavras são cuidadosamente escolhidas, seus silêncios são eloquentes e suas atitudes revelam alguém extremamente atento ao comportamento das pessoas ao seu redor.

Ao longo da narrativa, May conduz os acontecimentos de maneira discreta, mas extremamente eficaz, garantindo o casamento com Newland Archer mesmo quando percebe que os sentimentos dele caminham em outra direção. Ela não vence porque desafia as regras. Vence porque sabe utilizá-las melhor do que qualquer outra personagem.

Talvez seja justamente aí que Edith Wharton revele toda a sua genialidade. Ellen e May parecem opostas, mas ambas procuram sobreviver dentro de uma sociedade que oferece pouquíssima liberdade às mulheres.

Uma desafia os limites impostos pelas convenções.

A outra aprende a utilizá-las.

Nenhuma das duas é completamente livre.

Por que ainda ler A Era da Inocência?

À primeira vista, pode parecer que um romance ambientado na alta sociedade nova-iorquina do século XIX tenha pouco a dizer ao leitor contemporâneo.

Eu penso exatamente o contrário.

É claro que nosso mundo mudou profundamente desde então. As mulheres conquistaram direitos que Ellen Olenska sequer poderia imaginar. No entanto, permanecemos vivendo em uma sociedade na qual a imagem pública continua exercendo enorme influência sobre a forma como julgamos as pessoas.

As redes sociais ampliaram esse fenômeno. Continuamos cercados por ambientes em que a aparência frequentemente vale mais do que a realidade, em que a reputação pode ser construída ou destruída em poucas horas e em que as mulheres ainda são julgadas com muito mais severidade do que os homens.

Durante a leitura, uma frase de Ellen Olenska me pareceu resumir todo o romance:

“A verdadeira solidão é viver cercada por todas essas pessoas gentis que apenas lhe pedem que finja.”

Talvez seja essa a maior atualidade de Edith Wharton. Ela nos mostra que a verdadeira prisão daquela sociedade não era feita de muros ou leis, mas da obrigação permanente de representar um papel. Mais de um século depois, continuamos nos perguntando até que ponto somos realmente livres para viver sem essa máscara.

Leituras sugeridas

Ao clicar em cada título, você será direcionado ao texto em domínio público, quando for o caso, ou a um site de vendas, indicado apenas como referência — já que o livro pode ser adquirido na livraria de sua preferência.

  • Edith Wharton — A Casa da Alegria
    Lily Bart tenta sobreviver às rígidas convenções da alta sociedade nova-iorquina, mas descobre o preço de não se adequar às suas regras.
  • Edith Wharton — The Custom of the Country
    Undine Spragg transforma casamento e relações sociais em instrumentos de ascensão, revelando outro modo de jogar com as convenções.
  • Jane Austen — Emma
    Uma jovem rica e inteligente observa e manipula as relações ao seu redor, conhecendo profundamente as regras de sua sociedade.
  • Jane Austen — Persuasão
    Anne Elliot confronta, anos depois, as consequências de ter submetido seus desejos às expectativas sociais e familiares.
  • George Eliot — Middlemarch
    Diferentes mulheres enfrentam casamento, reputação e expectativas sociais em uma sociedade que limita suas possibilidades de escolha.
  • George Eliot — The Mill on the Floss
    Maggie Tulliver luta entre seus desejos e as convenções que determinam como uma mulher deve se comportar.
  • Charlotte Brontë — Villette
    Lucy Snowe aprende a sobreviver em um mundo no qual uma mulher precisa controlar cuidadosamente aquilo que revela de si.
  • Anne Brontë — The Tenant of Wildfell Hall
    Uma mulher rompe com um casamento opressivo e reivindica o direito de decidir sobre a própria vida.
  • Kate Chopin — The Awakening
    Edna Pontellier questiona o papel de esposa e mãe e busca uma liberdade que sua sociedade não está disposta a lhe conceder.
  • Elizabeth Gaskell — Wives and Daughters
    A vida familiar e as convenções sociais revelam as complexas estratégias utilizadas pelas mulheres para conquistar algum espaço de autonomia.
  • Elizabeth von Arnim — The Enchanted April
    Quatro mulheres descobrem, longe das convenções de sua vida cotidiana, possibilidades que seus papéis sociais haviam ocultado.

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