Confesso que nunca tinha ouvido falar de Carmen Dolores antes de encontrar A luta. E essa constatação talvez revele uma das muitas lacunas da história literária brasileira. Nascida Emília Moncorvo Bandeira de Melo (1852-1910), Carmen Dolores foi cronista, jornalista, contista e romancista, atuando em uma época em que a participação feminina na vida intelectual ainda encontrava inúmeras barreiras. Em seus textos, discutiu educação, costumes, relações familiares e, sobretudo, a condição da mulher em uma sociedade profundamente desigual.

Carmen Dolores (Emília Moncorvo Bandeira de Mello, 1852–1910). Retrato reproduzido da edição Um drama na roça, Coleção Escritoras do Brasil, Biblioteca do Senado Federal (2021).

Publicado inicialmente em folhetins em 1909 e lançado em livro em 1911, após a morte da autora, A luta impressiona pela atualidade de suas reflexões. A narrativa acompanha Celina, uma jovem casada que se vê aprisionada entre seus próprios desejos e as expectativas sociais que recaem sobre ela como esposa e mãe. Talvez seja anacrônico chamar o romance de feminista nos termos atuais, mas certamente podemos lê-lo como uma obra proto-feminista, pois expõe as restrições impostas às mulheres e questiona a naturalidade dessas limitações.

Mas o aspecto que mais me chamou a atenção durante a leitura foi o próprio título do romance. Que luta é essa a que Carmen Dolores se refere?

A primeira resposta surge na própria fala de Celina:

“Decerto… Pois é brincadeira viver como eu vivo entre duas sentinelas vigilantes, sem a mínima liberdade, não podendo dar um passo, fazer um gesto, ter um capricho, sem primeiro consultar, pedir licença às duas vontades superiores à minha, que me mantêm amarrada, presa, mais presa do que se apodrecesse debaixo de grilhões, no fundo de um cárcere?” (p. 46)

A linguagem empregada pela personagem é reveladora. Celina não descreve apenas um casamento frustrante; ela descreve uma prisão. As palavras “amarrada”, “presa”, “grilhões” e “cárcere” remetem à privação de liberdade e revelam o sentimento de sufocamento que acompanha sua vida cotidiana. Mais significativo ainda é o fato de ela mencionar “duas vontades superiores à minha”. Não é apenas o marido que limita sua autonomia. Também a sogra, D. Margarida, participa da vigilância constante que molda seu comportamento. A luta de Celina, portanto, é antes de tudo uma luta contra o papel que lhe foi atribuído.

Mas o romance amplia essa questão para além do plano individual. Em determinado momento, quando a possibilidade de separação surge como ameaça à estabilidade familiar, D. Margarida afirma:

“__ … Se é a separação que Celina quer, tem de entregar a filha, que é minha… Descanse, eu vou com muita calma…

__ Mas é a luta, meu filho!…

Ele encolheu os ombros com resignação.” (p. 62)

A expressão aparece de forma quase casual, como se não precisasse de explicação. E talvez não precisasse mesmo. Para aqueles personagens, a luta parece ser uma condição permanente da vida social. O que está em jogo não é apenas a relação entre marido e mulher, mas um conjunto de interesses, expectativas e relações de poder que atravessam a família.

Nesse sentido, a separação não surge como libertação. Pelo contrário. Em uma sociedade que não admitia o divórcio e reservava às mulheres uma posição de dependência econômica e moral, romper o casamento significava enfrentar novas formas de exclusão. A luta é também jurídica, social e institucional.

D. Margarida, por sua vez, merece uma leitura mais cuidadosa do que a de simples antagonista. Embora represente os valores tradicionais que aprisionam Celina, ela própria é produto daquele sistema. Sua dificuldade em aceitar a nora revela o conflito entre diferentes gerações de mulheres e mostra como as normas sociais são transmitidas e preservadas dentro da própria família. Ela não é apenas guardiã da ordem; é também uma de suas prisioneiras.

Ao longo do romance, porém, a luta mais dolorosa parece ocorrer no interior da própria protagonista. Celina vive dividida entre aquilo que desejava para sua vida e aquilo que lhe é permitido viver. Trata-se de um conflito que, em alguns aspectos, aproxima a obra de outras narrativas escritas por mulheres na mesma época, como O Despertar, de Kate Chopin, e The Yellow Wallpaper, de Charlotte Perkins Gilman. Em todas elas encontramos mulheres confrontando os limites impostos à sua autonomia e buscando algum espaço para afirmar sua própria identidade.

Entretanto, Carmen Dolores conduz sua protagonista por um caminho distinto. Enquanto algumas dessas personagens recusam a acomodação, Celina acaba cedendo às pressões que a cercam. Em um dos momentos mais melancólicos do romance, ela declara:

“__ Mamãe! vou para meu marido, balbuciou Celina: é melhor para todos!…” (p. 126)

A frase é devastadora justamente porque não expressa felicidade, desejo ou reconciliação. Celina não retorna ao marido porque encontrou uma solução para seus conflitos. Ela retorna porque conclui que sua permanência no papel que a sociedade lhe atribuiu é a alternativa menos dolorosa para aqueles ao seu redor. Sua escolha é marcada pela renúncia.

Mas o verdadeiro alcance do título só se revela plenamente na última frase do romance:

“Em tais meios, a luta jamais cessa: continua sempre, entre exploradores e exploradas. É a terrível, infindável, a eterna luta! É o renhido jogo dos interesses inconfessáveis!”

Essa conclusão obriga o leitor a reler toda a narrativa. A luta de Celina não é apenas sua. A luta de D. Margarida não é apenas familiar. A luta não se restringe ao casamento ou à separação. Ela é apresentada como um conflito estrutural, permanente, que opõe “exploradores” e “exploradas”. Não por acaso, Carmen Dolores escolhe o feminino para designar aqueles que sofrem a exploração.

É nesse momento que A luta deixa de ser apenas a história de uma mulher infeliz no casamento para tornar-se uma crítica mais ampla às relações de poder que organizavam a sociedade de seu tempo. Celina é apenas um exemplo entre muitas outras mulheres submetidas às mesmas limitações, às mesmas expectativas e às mesmas renúncias.

Talvez seja por isso que o romance continue tão atual. Mais de um século após sua publicação, Carmen Dolores nos lembra que certas lutas não pertencem apenas ao passado. Algumas delas continuam ecoando no presente.

Leituras sugeridas

Ao clicar em cada título, você será direcionado ao texto em domínio público, quando for o caso, ou a um site de vendas, indicado apenas como referência — já que o livro pode ser adquirido na livraria de sua preferência.

  • O Despertar, de Kate Chopin — Um dos romances mais importantes sobre o conflito entre o desejo de liberdade feminina e as expectativas impostas pelo casamento.
  • The Yellow Wallpaper, de Charlotte Perkins Gilman — Conto clássico que retrata o confinamento físico e psicológico de uma mulher sob a autoridade masculina.
  • A Falência, de Júlia Lopes de Almeida — Um dos grandes romances brasileiros sobre casamento, dependência econômica e papéis de gênero no início do século XX.
  • Herland, de Charlotte Perkins Gilman — Uma utopia feminista que imagina uma sociedade organizada sem a dominação masculina.
  • Wide Sargasso Sea, de Jean Rhys — Reinterpreta a figura da “louca do sótão” de Jane Eyre, discutindo identidade, silenciamento e poder.
  • Jane Eyre, de Charlotte Brontë — Romance em que a protagonista busca conciliar amor, independência e dignidade em uma sociedade profundamente desigual.
  • A Rainha do Ignoto, de Emília Freitas — Uma obra singular da literatura brasileira que imagina espaços de emancipação feminina por meio da fantasia e da utopia.
  • Úrsula, de Maria Firmina dos Reis — Romance pioneiro que denuncia múltiplas formas de opressão, articulando gênero, raça e escravidão.

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