George Sand, identidade e ruptura: um olhar sobre Gabriel
Falar de George Sand é entrar em contato com uma das vozes mais ousadas e inovadoras da literatura do século XIX. Nascida como Aurore Dupin, a autora adotou um pseudônimo masculino em uma época em que mulheres escritoras enfrentavam forte preconceito e pouca legitimidade no meio literário. Assinar como “George Sand” não foi apenas uma estratégia editorial — foi também um gesto de afirmação e liberdade.
As amazonas de Cranford: mulheres, cotidiano e comunidade em Elizabeth Gaskell
Elizabeth Gaskell (1810–1865) foi uma das grandes romancistas inglesas do século XIX, embora por muito tempo tenha permanecido relativamente à sombra de alguns de seus contemporâneos mais celebrados. Amiga e colaboradora de Charles Dickens, que publicou vários de seus textos na revista Household Words, Gaskell construiu ao longo de sua carreira uma obra marcada pela atenção à vida social inglesa e, em especial, às experiências femininas. Romances como Mary Barton e North and South abordam conflitos sociais ligados à industrialização, enquanto outros textos se voltam para universos mais domésticos e comunitários. Entre estes, destaca-se Cranford, talvez seu livro mais singular.
A Rainha do Ignoto e o Regionalismo Fantástico: quando o sertão encontra o extraordinário
Durante muito tempo, eu nunca tinha ouvido falar de A Rainha do Ignoto. Só descobri o romance em 2025 — e a sensação foi curiosa: como uma obra tão original da literatura brasileira podia ter passado tanto tempo fora do meu radar? Quanto mais eu lia, mais me impressionava a mistura de regionalismo, fantasia, crítica social e imaginação utópica. Aos poucos, fui percebendo que essa estranheza talvez seja justamente a força do livro: ele parece deslocado no seu próprio tempo, mas conversa de forma surpreendente com debates literários de hoje.
O Monstro mais Humano da Literatura
Mary Shelley (1797-1851) foi uma escritora britânica mais conhecida por ter criado Frankenstein (1818), uma obra que atravessou gerações ao misturar elementos de terror, filosofia e primórdios da ficção científica. Filha da filósofa Mary Wollstonecraft e do pensador William Godwin, Shelley cresceu em um ambiente intelectual que influenciou profundamente sua escrita. Sua obra reflete questões sobre os limites da ciência, a responsabilidade da criação e a natureza humana, temas que continuam atuais e que fazem dela uma das vozes mais importantes da literatura ocidental.
Olive Schreiner e The Story of an African Farm: um romance protofeminista
Olive Schreiner (1855-1920) foi uma escritora sul-africana cuja obra se destacou por desafiar abertamente as convenções sociais e de gênero do século XIX. Nascida na Colônia do Cabo, em um contexto marcado pelo colonialismo britânico e por estruturas profundamente patriarcais, Schreiner desenvolveu desde cedo uma visão crítica sobre o lugar da mulher na sociedade. Não por acaso, quando publicou A história de uma fazenda africana em 1883, escolheu fazê-lo sob o pseudônimo masculino Ralph Iron — uma estratégia comum entre mulheres escritoras da época para driblar o preconceito editorial e garantir que a obra fosse levada a sério.
Jean Rhys e a descolonização de Bertha Mason
Jean Rhys (1890–1979) nasceu na ilha de Dominica, no Caribe, então parte do Império Britânico, filha de mãe crioula e pai galês — uma origem que marcaria profundamente sua obra. Cresceu entre culturas, línguas e pertencimentos conflitantes, experiência que lhe deu uma percepção aguda das violências coloniais, das hierarquias raciais e da marginalização feminina.
Jane Eyre e a coragem de dizer não
Charlotte Brontë (1816-1855) é uma das mais famosas escritoras de língua inglesa, parte incontornável do cânone, lida e ensinada amplamente nos cursos de literatura. Dona de uma imaginação singular, produziu — juntamente com as irmãs Emily e Anne — livros que mudaram a história da literatura e moldaram leitores e leitoras ao longo de quase dois séculos.
A autora que eu não estudei na universidade — e que mudou minha visão de literatura
Pouca gente fora do Piauí conhece Alvina Gameiro — e isso sempre me pareceu uma injustiça difícil de explicar. Porque, para quem já percorreu suas páginas, é evidente que estamos diante de uma autora que merecia estar entre os grandes nomes da literatura brasileira. Alvina escreve com uma intensidade rara, com aquele tipo de verdade que só nasce de quem conhece profundamente o sertão, a dureza da terra e, sobretudo, a vida das mulheres que nele sobrevivem.
A força incômoda de “A Caolha”, de Julia Lopes de Almeida
Este texto propõe um breve reencontro com uma autora que a história literária brasileira tentou silenciar. Ao revisitar a trajetória de Julia Lopes de Almeida e a leitura de um de seus contos mais emblemáticos, abre-se espaço para refletir sobre apagamento, exclusão e a persistente atualidade de sua escrita.
Maria Firmina dos Reis: a voz que o Brasil esqueceu – e que precisamos ouvir
Durante toda a minha trajetória como estudante de Letras, o nome de Maria Firmina dos Reis me era totalmente desconhecido. Posso justificar essa ausência no mestrado e no doutorado, já que meu foco em ambos era literatura de língua inglesa. Mas como explicar isso na graduação, realizada entre 1978 e 1982?
Como escritoras moldaram a minha visão de mundo
Sempre amei literatura. Aprendi a ler tão jovem que não me lembro de minha vida antes da leitura. Cresci rodeada de livros – meu pai era professor, um leitor voraz, e sempre nos estimulava a ler. No entanto, não lembro de ter lido muitas mulheres na minha infância. Minhas primeiras leituras foram os Irmãos Grimm, Monteiro Lobato e Charles Perrault.
