
Durante muito tempo, eu nunca tinha ouvido falar de A Rainha do Ignoto. Só descobri o romance em 2025 — e a sensação foi curiosa: como uma obra tão original da literatura brasileira podia ter passado tanto tempo fora do meu radar? Quanto mais eu lia, mais me impressionava a mistura de regionalismo, fantasia, crítica social e imaginação utópica. Aos poucos, fui percebendo que essa estranheza talvez seja justamente a força do livro: ele parece deslocado no seu próprio tempo, mas conversa de forma surpreendente com debates literários de hoje.
Publicado em 1899, A Rainha do Ignoto, de Emília Freitas, é um dos romances mais singulares da literatura brasileira do século XIX. Misturando aventura, utopia social, crítica moral e imaginação fantástica, a obra constrói um universo narrativo em que o cotidiano do sertão nordestino convive com elementos extraordinários. Hoje, leituras contemporâneas aproximam o livro do que a escritora e pesquisadora Jadna Alana chama de regionalismo fantástico. Antes, porém, vale conhecer um pouco a autora por trás dessa obra tão singular.
Emília Freitas: uma autora à frente do seu tempo
Emília Freitas (1855–1908) foi uma escritora cearense, nascida em Aracati, no estado do Ceará. Professora, poeta, romancista e jornalista, ela participou ativamente da vida intelectual do final do século XIX — um espaço que ainda era fortemente dominado por homens.
Sua obra mais conhecida hoje é justamente A Rainha do Ignoto, publicado em 1899 em Fortaleza. O romance é considerado um caso singular na literatura brasileira do período porque mistura regionalismo, utopia social, crítica moral e elementos fantásticos, algo bastante distante do realismo dominante na época.
Além da ficção, Emília Freitas também publicou poesia e escreveu em jornais. Como muitas mulheres intelectuais do século XIX, sua atuação esteve ligada à educação e à imprensa — dois dos poucos espaços em que as mulheres conseguiam intervir publicamente no debate cultural.
Uma obra esquecida por mais de um século

Apesar da originalidade de seu romance, Emília Freitas permaneceu quase invisível na história literária brasileira durante grande parte do século XX.
Há várias razões para isso. O próprio cânone literário brasileiro foi construído privilegiando autores homens e obras alinhadas aos movimentos dominantes — como o realismo e o naturalismo. Um romance tão híbrido quanto A Rainha do Ignoto, com sua sociedade secreta feminina e seus elementos fantásticos, acabou ficando à margem.
Além disso, a circulação editorial do livro foi limitada. Durante décadas, a obra ficou praticamente inacessível, o que contribuiu para que o nome da autora desaparecesse das leituras escolares e universitárias.
Esse apagamento explica algo que muitos leitores experimentam hoje: a sensação de descobrir uma autora extraordinária que parecia ter sido esquecida pela história literária.
Sertão, mistério e imaginação: o regionalismo fantástico
É nesse contexto que leituras contemporâneas, como o conceito de regionalismo fantástico discutido por Jadna Alana, ajudam a iluminar novamente o romance.
O conceito procura dar conta de narrativas em que o espaço regional — suas paisagens, costumes, conflitos sociais e linguagem — não é apenas cenário realista, mas também campo de manifestação do insólito e do maravilhoso. Em outras palavras, trata-se de um regionalismo que não se limita à representação documental da região: ele abre espaço para o mistério, para o mito e para o extraordinário.
Em A Rainha do Ignoto, isso se manifesta de forma particularmente original. A narrativa apresenta uma sociedade secreta feminina que atua para corrigir injustiças sociais, realizando aquilo que chamam de “assaltos do bem”:
Dentro de três dias partiremos para os assaltos do bem, vamos guerrear a injustiça, proteger o fraco contra o forte, entrar nos cárceres para curar os enfermos, lançar-nos às ondas para salvar os náufragos e atirar-nos aos incêndios para lhes arrebatar as vítimas! Quem não estiver pronta a perder a vida pela fé jurada, pode assinar seu nome no livro da covardia (p. 141).
Nesse universo ficcional, a justiça não depende das instituições oficiais, mas de uma ordem secreta de mulheres que age nas margens do mundo social. A descrição dessa organização mistura elementos militares, imaginários cosmopolitas e uma ética humanitária quase mística:
As paladinas desta fração vestiam à turca, da outra à indiana: ali havia todos os postos do exército e da marinha dos países civilizados, com a diferença de que não eram ganhos nem por vilanias nem por inúteis derramamentos de sangue; se obtinha as promoções enxugando lágrimas, salvando vidas, frustrando planos nocivos, e evitando crimes: era isto o que chamavam assaltos do bem (p. 142).
Aqui se percebe um dos aspectos que aproximam o romance do regionalismo fantástico: a coexistência entre o concreto e o improvável. O sertão, espaço associado à realidade social brasileira do período, torna-se palco de uma fraternidade secreta que opera quase como uma ordem mítica.
Ao mesmo tempo, o romance não abandona o drama interior da protagonista. Em vários momentos, a narrativa mergulha numa dimensão melancólica e existencial:
Os próprios astros têm sua família planetária, pensou ela olhando o céu, e eu divago na terra só; tenho o coração desprendido como um balão arremessado ao espaço, onde até a luz desaparece no vácuo! Sem pai, sem mãe, sem irmãos, sem esposo, sem filhos… (p. 183).
Esse sentimento de desenraizamento revela outra tensão importante do livro: a personagem que lidera grandes ações altruístas também carrega um profundo vazio pessoal. Ela mesma reconhece que seu impulso para fazer o bem tem algo de compulsivo:
Faço o bem maquinalmente, por um destino, uma tendência, como a do que se embriaga pelo desespero! (p. 184).
Essa ambiguidade — entre heroísmo e desamparo — dá profundidade psicológica à narrativa e impede que o romance seja apenas uma utopia moralizante.
Outro aspecto fundamental do livro é sua reflexão sobre o lugar da mulher na sociedade. Mesmo liderando uma organização poderosa e extraordinária, a protagonista expressa uma visão marcada pelas expectativas sociais do século XIX:
Julgo apenas que fora do amor não há para a mulher grandeza nem felicidade possível! Julgo também que a mais ambiciosa de ouro e de glória, não trocaria por uma coroa de louros a grinalda de flores de laranjeira do dia do seu noivado (p. 254).
Essa tensão entre emancipação e ideal romântico revela o diálogo complexo da obra com seu contexto histórico.
Por fim, o romance também flerta com uma dimensão espiritual que ultrapassa os limites da vida terrena:
Um trato de amor sobre os degraus de um túmulo. Mas não é uma profanação. Deus manda aos espíritos que se amem além da vida terrestre (p. 292).
Aqui, o fantástico não aparece apenas em eventos extraordinários, mas também na forma como a narrativa imagina relações que transcendem a morte.
Uma obra redescoberta
A redescoberta de Emília Freitas mostra como a história literária está sempre em transformação. Hoje, A Rainha do Ignoto aparece com frequência em discussões sobre literatura fantástica brasileira, escrita de mulheres e utopias femininas.
O romance antecipa temas que chamam cada vez mais atenção nos debates atuais:
- redes de solidariedade feminina
- crítica às estruturas de poder
- imaginação utópica
- mistura de regionalismo e fantasia
Talvez por isso o livro soe tão moderno para leitores do século XXI. A sensação de “descoberta tardia” que muitos leitores têm revela menos uma falha da obra e mais as lacunas de nossa memória literária.
Reler Emília Freitas hoje é, de certo modo, participar de um movimento de reparação: trazer novamente à luz uma escritora que imaginou, ainda no século XIX, um mundo em que mulheres organizadas lutavam contra injustiças e realizavam aquilo que chamavam de “assaltos do bem”.
Leituras para continuar essa descoberta
Se a leitura de A Rainha do Ignoto despertar a curiosidade por outras obras que misturam imaginação, crítica social e protagonismo feminino, algumas autoras podem ampliar esse caminho de leitura.
Ler A Rainha do Ignoto hoje é também uma oportunidade de ampliar nosso mapa de leituras e descobrir outras escritoras que exploram, cada uma à sua maneira, as fronteiras entre realidade, imaginação e crítica social.
Estudos e crítica
- A dissertação de Jadna Alana, A construção do regionalismo fantástico na obra O auto da maga Josefa, disponível no repositório da Universidade Federal de Ouro Preto, é um excelente ponto de partida para compreender o conceito de regionalismo fantástico e as possibilidades críticas de leitura do romance de Emília Freitas.
- Transgressão Feminina: Emília Freitas e a transgressão da realidade através da narrativa fantástica, de Adrianna Alberti, aprofunda a relação entre o elemento fantástico e a dimensão de transgressão feminina presente na obra.
Romances que dialogam (ou não) com esse universo
Ao clicar em cada título, você será direcionado ao texto em domínio público, quando for o caso, ou a um site de vendas, indicado apenas como referência — já que o livro pode ser adquirido na livraria de sua preferência.
Socorro Acioli — Oração para Desaparecer
Um romance em que o mistério e o insólito atravessam a vida de uma mulher, ecoando a força simbólica do fantástico feminino.
Conceição Evaristo — Ponciá Vicêncio
Narrativa marcada pela memória e pela ancestralidade que acompanha a busca de uma mulher por identidade e pertencimento.
Maryse Condé — Eu, Tituba: Bruxa Negra de Salem
Reimaginação literária da figura histórica acusada de bruxaria em Salém, misturando história, espiritualidade e crítica colonial.
Lygia Fagundes Telles — As Meninas
Três vozes femininas entrelaçadas revelam, em meio à repressão política, conflitos íntimos e existenciais.
Isabel Allende — A Casa dos Espíritos
Romance em que história familiar, política e acontecimentos sobrenaturais se entrelaçam em uma narrativa marcada pelo realismo mágico.
Jadna Alana — Se tu me quisesse
Uma narrativa lírica em que o fantástico surge como expressão íntima do desejo, da diferença e da liberdade.
Nara Vidal — Puro
Um romance que explora relações humanas e tensões sociais com olhar sensível para as complexidades da experiência feminina.
Leonora Carrington — A Corneta
Uma fantasia surreal e irreverente que subverte normas sociais ao colocar mulheres idosas no centro de uma aventura extraordinária.
Mary Shelley — Frankenstein
Um clássico em que a criação monstruosa revela os limites da ciência e as angústias humanas diante do desconhecido.

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