
Maria estava super nervosa. Afinal, nunca havia saído de Teresina, sua cidade natal. Imagina ir tão longe, para Florianópolis, tentar uma seleção de mestrado. Mas sabia bem o que estava fazendo, ou pelo menos assim pensava. Depois de uma separação difícil, e de ter ficado sozinha com quatro filhos, ela sabia que precisava crescer na carreira para ter um melhor salário, e poder dar uma vida melhor para seus filhos. Pensão do ex-marido era pura ilusão, e ela preferia que fosse assim, pois não queria que ele tivesse qualquer poder sobre ela.
Naquele dia de dezembro de 1994, desceu no aeroporto de Florianópolis muito nervosa, mas decidida. Pegou um táxi, e foi direto para o pequeno hotel que reservara. Ali, buscaria informações de como chegar à UFSC, o que não foi difícil. As provas seriam no dia seguinte.
Ela quase não dormiu aquela noite. Como conseguiria? As crianças haviam ficado com os avós para que ela pudesse fazer a seleção, mas ela sabia que não contava com o apoio da mãe, que não entendia sua necessidade de estudar, e a chamava de ambiciosa. Maria não se zangava, apenas orava para que desse tudo certo.
Acordou muito cedo, e pegou outro táxi para a UFSC – gastaria muito nesses dias, mas estava preparada para isso. Logo se localizou na instituição, e foi encaminhada para a sala da prova.
Ela nunca imaginou que faria uma prova daquelas. Ela nunca tinha ouvido falar em pesquisa, em tese, em coisas do gênero, mas não podia desistir.
A prova do turno da manhã foi de literatura: cada candidato deveria escolher entre um conto de James Joyce e um poema de Shakespeare para analisar, relacionando forma e conteúdo. Maria olhou para aquela folha de papel, com tudo escrito em inglês, e se perguntou se estava no lugar certo. Mas não hesitou: escolheu o poema, pois o havia estudado em uma disciplina de sua graduação, e se lembrava com clareza da fala de sua professora sobre o texto. Escreveu como orientava o enunciado da questão, sem ter a menor ideia se estava certa ou não.
À tarde, houve a prova de linguística, assunto que ela praticamente desconhecia. Foram seis perguntas, ela deveria escolher três. Escolheu as que falavam de ensino. Afinal, era professora, talvez tivesse alguma chance ali. Novamente, fez o que foi pedido no enunciado, mas sem certeza nenhuma. A única certeza que tinha era de que não podia deixar de fazer, seu futuro dependia daquilo.
No dia seguinte, ainda sem os resultados das provas, foram as entrevistas. Cada candidato foi entrevistado por uma banca de professores, entre os quais estava sempre a coordenadora do curso, que, de óculos escuros, tornava impossível aos candidatos perceberem para onde ela olhava. Ela tremia toda no momento de sua entrevista. E quando a coordenadora lhe disse que ela não poderia defender uma dissertação de mestrado porque seu sotaque era muito forte, ela se sentiu desmoronar. Não passaria naquela seleção, e sua oportunidade de fazer um mestrado na área que ela queria, e que lhe permitiria ser uma melhor professora de literatura, estava escapando pelos seus dedos.
No outro dia, saiu o resultado. Eram 15 vagas. 11 foram selecionados. Ela ficou no 11º lugar. Fora selecionada!!
Ela não sabia se chorava ou se sorria. Só sabia que não perderia aquela oportunidade, e seria mestra em Literatura de Língua Inglesa. O desafio agora era trazer os filhos, pois teria de passar 3 anos em Florianópolis, mas aquilo lhe parecia café pequeno depois das implicâncias da coordenadora, e da humilhação que sentira ao ser menosprezada por seu sotaque.
Anos depois, já doutora, Maria ouviu nos corredores da UFSC que a professora que a considerara incapaz por causa do sotaque havia sido rejeitada em uma seleção para lecionar no Reino Unido. O motivo, diziam, era exatamente o mesmo. Pela primeira vez, desde aquela entrevista, Maria sorriu ao lembrar da coordenadora.

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