
Ela tinha 19 anos e estava grávida do primeiro filho. Usava óculos desde os 10 anos de idade e sentia a vista mais cansada desde o quinto mês da gravidez. Por conselho da mãe, decidiu ir ao oftalmologista, um parente distante da família. Achava-o muito arrogante, mas, como ele não cobrava consulta, não viu escolha.
Como previa, a consulta foi horrível. Ele afirmou que, se ela não diminuísse a intensidade da leitura, poderia perder a visão. Acreditava que mulheres deveriam se contentar em ficar em casa cuidando do marido e dos filhos — e, para ele, leitura não fazia parte desse escopo.

Era uma tarde quente de outubro e, com oito meses de gravidez, ela realmente sentia a vista cansada. Sabia que precisaria trocar as lentes dos óculos, mas a ideia de abrir mão dos livros — sua principal fonte de lazer e de estudo — parecia absurda. Perguntou ao médico:
— O senhor tem uma arma, um revólver aí na sua gaveta?
— Claro que não, moça, que loucura é essa?
— Se é para eu deixar de ler, o senhor me mata logo, ora.
Ele sorriu com aquele ar condescendente que ela odiava e disse:
— Está bem, continue lendo. Apenas tente ler sempre em ambientes bem iluminados, certo?
Ela pegou a receita dos novos óculos, saiu irritada do consultório e decidiu passar na casa da avó antes de pegar o ônibus para casa.
Ao se aproximar da Praça do Liceu, uma cena a deixou maravilhada: um homem cego, guiado por um labrador preto. Ela observou como o cão atravessava a rua sem cometer um único erro. Murmurou para si mesma:
— Se um dia eu perder a visão, quero ter um cachorro assim.
Os anos passaram. Ela não ficou cega, mas manteve o desejo de ter um labrador. Quando finalmente conseguiu comprar uma casa com espaço suficiente, encontrou Hachiko em uma pet shop. Foi amor à primeira vista. Ele se tornou seu amigo e companheiro inseparável.
Preocupada com a solidão do cão, ela adotou, um ano depois, um vira-lata caramelo chamado Yujo. Os dois se tornaram irmãos de coração, trazendo alegria e calor para sua vida, que nunca mais se sentiu sozinha.
Mas o tempo, inevitável, trouxe suas perdas. Primeiro, Yujo se foi, inesperadamente, deixando um silêncio pesado na casa e um vazio no coração da mulher. A tristeza parecia maior por ele ter partido tão jovem, e cada canto da casa lembrava sua presença alegre. Hachiko parecia compreender, encostando-se nela, compartilhando o luto silencioso.
Meses depois, Hachiko também se despediu, deixando um vazio ainda mais profundo. Ela chorou como nunca antes, abraçando a lembrança das manhãs de sol, das brincadeiras no quintal e das noites silenciosas em que o calor de seus cães tornava tudo mais leve.
Mesmo com a dor, havia um consolo suave: cada dia com Yujo e Hachiko tinha sido pleno, e suas memórias agora brilhavam como páginas iluminadas de sua vida. O amor que eles deram e receberam permanecia, sereno, como um sussurro que dizia que, apesar da perda, a alegria nunca desaparece por completo. Quanto ao médico, ela sorria ao lembrar: se não fosse aquela conversa absurda sobre perder a visão, talvez nunca tivesse conhecido a felicidade de ter um cão.


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