Cartas de Belém

Lúcia tinha doze anos quando o conheceu. Era só uma menina; ele, um homem feito. Passava férias com a família na praia de Coqueiro, no litoral do Piauí, quando se encontraram entre as dunas. O homem parecia sempre à vontade sob o sol, com a pele queimada de sal e vento e olhos que pareciam ver demais. A atenção dele a deixava envergonhada, curiosa e inquieta. Nunca ficava sozinha quando ele estava por perto.

Um dia, uma onda quase a levou. Foi ele quem a segurou e a devolveu à areia. Naquele mesmo dia, pediu ao pai dela permissão para namorá-la — sem perguntar à menina. O pai riu, sem graça, dizendo que ela ainda era muito nova.

Dias depois, enquanto a mãe dormia a sesta, o homem se aproximou por trás e a beijou. Rápido, inesperado. Lúcia recuou assustada e correu para dentro de casa. Passou a contar os dias para voltar a Teresina, imaginando que lá ele não a encontraria.

Mas encontrou. Pouco tempo depois, apareceu na casa da família e convenceu o pai a aceitar um noivado. Ficou decidido que viajaria para Belém por dois anos e, ao voltar, se casariam. Disse que escreveria toda semana, “para se conhecerem melhor”.

As cartas, porém, nunca chegaram — ou nunca lhe foram entregues. Nos primeiros meses, Lúcia ainda perguntava se havia correspondência. A resposta era sempre “não”. Com o tempo, desistiu. Era apenas uma menina.

Os anos passaram. Lúcia cresceu, casou-se, teve filhos. Um dia, recebeu um telefonema da mãe, pedindo que fosse vê-la “antes que fosse tarde”. Ao chegar, a mãe lhe entregou um pequeno embrulho atado com fita desbotada. Dentro havia doze cartas escritas por aquele homem durante o primeiro ano em Belém.

Lúcia não soube o que dizer. Sentiu-se protegida e traída. Protegida porque a vida a poupou de algo que agora entendia melhor. Traída porque aquelas cartas eram dela e tinham sido escondidas. Leu todas em silêncio. Quando terminou, ficou olhando o papel amarelado, as palavras de um passado que não existia mais. E pensou que talvez o tempo tivesse escolhido por ela aquilo que, tão menina, nunca teria conseguido escolher.

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