A Grande Guerra

Durante muitos séculos, os povos de Nirian viveram sem que nenhum conflito ameaçasse o planeta como um todo.

Orinae, Vorikhani, Virdanel e Lyre’Nai ocupavam diferentes regiões, atravessavam fronteiras, estabeleciam alianças e compartilhavam territórios. Não existia uma divisão política baseada nos povos, e as diferenças entre eles raramente determinavam guerras.

Os conflitos existiam.

Condados disputavam terras. Governantes tentavam ampliar sua influência. Comunidades entravam em desacordo pelo controle de rios, florestas ou rotas comerciais. Rivalidades antigas atravessavam gerações.

Mas eram conflitos locais.

Nenhuma guerra alcançara todos os rincões de Nirian.

Naquele tempo, os países conhecidos atualmente ainda não existiam como unidades políticas. Os cinco condados de Vinione — Baleah, Kenan, Nirimi, Grisesoy e Balcmeg — governavam a si mesmos. Kala e Adel, hoje reunidos em Tamar, mantinham administrações independentes. Em Lasthya, Tündük, Phaktai, Jogork, Kıska e Dakṣiṇī possuíam leis e governos próprios.

O mesmo ocorria no Hemisfério Norte.

Os territórios que mais tarde formariam Ahris, Achen, Flaci e Barad mantinham governos independentes e relações nem sempre amistosas. Não havia uma religião predominante na região, e a diversidade de crenças fazia parte da vida cotidiana.

Nirian era um planeta de territórios independentes, ligados por comércio, migrações, crenças e, às vezes, alianças temporárias.

Esse equilíbrio começou a se romper em Baleah.

A ascensão da Zarthaan

Cento e dois anos antes da Pacificação, surgiu no condado de Baleah uma nova religião dedicada a Veyronis.

Ela recebeu o nome de Zarthaan.

Desde o princípio, sua doutrina defendia que Veyronis era superior às demais divindades e que apenas ele deveria ser cultuado. Seus primeiros templos foram erguidos em pedra negra, e seus sacerdotes vestiam mantos escarlates, símbolos da pureza pelo fogo e do domínio pela força.

Durante quarenta anos, a Zarthaan cresceu.

Não houve uma súbita transformação de uma religião pacífica em uma doutrina intolerante. A rejeição às outras crenças fazia parte de seus ensinamentos desde o início. O que mudou foi sua capacidade de transformar a intolerância em poder.

Nos primeiros anos, seus seguidores concentraram-se em Baleah. Construíram templos, estabeleceram uma hierarquia sacerdotal e conquistaram influência entre proprietários de terras, comandantes e governantes locais.

Entre os nomes mais antigos preservados pelos registros encontra-se o de Sareth Vaelor, inicialmente responsável pela proteção dos principais templos Zarthaan. Sua ascensão acompanhou o crescimento da religião. Ao longo de duas décadas, deixou de comandar guardas religiosos para se tornar o principal organizador de suas forças armadas.

Aos poucos, a Zarthaan passou a interferir na administração de Baleah.

Seguidores de outras religiões foram afastados de cargos de poder. Celebrações públicas passaram a sofrer restrições. Templos Niriistas foram vigiados. Comunidades inteiras começaram a ser pressionadas a abandonar suas crenças.

As seguidoras de Ekhena’Niri tornaram-se o primeiro e principal alvo.

Durante algum tempo, a perseguição ainda se escondia atrás de leis, proibições e discursos. Sacerdotes Zarthaan acusavam as devotas da Deusa-Mãe de corromper a ordem natural e enfraquecer a autoridade de Veyronis. Mulheres que ocupavam funções religiosas eram apresentadas como ameaça.

A hostilidade cresceu. Depois vieram as prisões, os desaparecimentos, a destruição dos primeiros templos.

Quarenta anos após o surgimento da Zarthaan, os ataques deixaram de ser isolados.

Começava a Grande Guerra.

Da perseguição à guerra

Os primeiros ataques organizados foram dirigidos às seguidoras de Ekhena’Niri.

Templos Niriistas foram invadidos. Sacerdotisas desapareceram. Mulheres foram obrigadas a renunciar publicamente à própria fé. Símbolos sagrados foram destruídos e comunidades inteiras expulsas de regiões onde viviam havia gerações.

Uma das primeiras vozes a denunciar o que acontecia foi Maeryn Tal’Vera, sacerdotisa Niriista que percorreu diferentes territórios de Vinione tentando convencer seus governantes de que Baleah não enfrentava uma disputa religiosa interna, mas o início de uma ameaça muito maior.

Poucos a ouviram.

Durante algum tempo, muitos acreditaram que a perseguição permaneceria restrita ao conflito entre os seguidores de Veyronis e as devotas de Ekhena’Niri.

Não permaneceu.

À medida que a influência Zarthaan se espalhava pelos demais condados de Vinione, seus líderes passaram a defender que nenhuma outra forma de culto deveria sobreviver.

Seguidores do Círculo das Forças Naturais foram perseguidos.

Santuários Or’Maïra foram destruídos.

Comunidades Kondaré tiveram seus ritos proibidos e seus lugares sagrados profanados.

A perseguição religiosa tornou-se expansão territorial.

E a expansão tornou-se guerra.

É importante lembrar que a Grande Guerra jamais foi uma guerra entre povos.

Havia Orinae, Vorikhani, Virdanel e Lyre’Nai entre os seguidores de Veyronis, assim como havia integrantes dos quatro povos entre aqueles que resistiam. Famílias foram divididas. Comunidades inteiras se fragmentaram. Pessoas que compartilhavam a mesma origem passaram a lutar em lados opostos.

O que dividiu Nirian não foi a espécie. Não foi a língua. Não foi o território. Foi a crença de que uma única fé possuía o direito de destruir todas as outras.

Um planeta dividido

Durante os primeiros anos, a resistência foi desorganizada.

Cada região tentou defender-se sozinha.

Em Vinione, os condados que ainda não haviam sido dominados pela Zarthaan demoraram a compreender que a expansão iniciada em Baleah não terminaria antes de alcançá-los.

Em Lasthya, as províncias de maioria Niriista resistiram separadamente. Tündük, onde a fé Kondaré predominava, concentrou inicialmente seus esforços na proteção das próprias fronteiras.

No Hemisfério Norte, os territórios que mais tarde formariam Ahris, Achen, Flaci e Barad observavam o avanço da guerra como um problema distante.

Também estavam errados.

Quando os primeiros exércitos atravessaram as antigas fronteiras e a perseguição alcançou o Norte, os territórios daquele hemisfério descobriram o que o Sul já aprendera:

não havia neutralidade possível diante de uma religião que considerava a existência das demais uma ofensa.

Nenhum lugar, porém, sofreu tanto quanto Tamar.

A cordilheira que separava Kala e Adel, antes considerada uma proteção natural, transformou-se em obstáculo para a defesa conjunta. As duas regiões resistiram separadamente e quase foram destruídas.

Foi então que dois líderes decidiram fazer o que, até aquele momento, parecia impossível.

Kodar An’Ser, líder de uma grande comunidade Kondaré, e Eran Maïr, representante dos seguidores de Or’Maïra, aceitaram unir suas forças.

A aliança entre os dois tornou-se um dos acontecimentos mais lembrados da guerra.

Diz-se que, ao se encontrarem pela primeira vez, nenhum deles confiava no outro.

Mas ambos sabiam que, se lutassem separados, talvez não restassem sobreviventes suficientes para continuar a discordar.

A resistência de Tamar tornou-se um exemplo. Pouco a pouco, antigas fronteiras começaram a perder importância. Tündük enviou combatentes para auxiliar comunidades Niriistas. Seguidores de Ekhena’Niri protegeram santuários de outras divindades.

No Norte, territórios que durante séculos haviam mantido apenas relações comerciais começaram a organizar defesas conjuntas. Entre os nomes preservados desse período está o de Ravel Dhor, comandante que coordenou as primeiras rotas de comunicação entre as forças de Ahris, Achen, Flaci e Barad.

Ao seu lado destacou-se Elya Soren, engenheira de Ahris responsável por adaptar antigas fortificações e desenvolver sistemas de abastecimento capazes de manter cidades sitiadas durante longos períodos. Seus projetos permitiram proteger milhares de civis e transformaram-se, posteriormente, na base da reconstrução urbana em diversas regiões do Norte.

Em Achen, a jurista Naelis Vor organizou uma rede de assembleias regionais destinada a registrar denúncias de perseguição religiosa e coordenar o acolhimento de refugiados. Seus registros tornaram-se uma das principais fontes utilizadas pelos historiadores para compreender os primeiros anos da expansão Zarthaan.

Já em Flaci, o navegador Toren Halvik reuniu capitães mercantes e pescadores em uma extensa rede marítima de abastecimento. Graças às rotas que coordenou, alimentos, medicamentos e refugiados continuaram a circular entre os dois hemisférios mesmo nos períodos mais intensos da guerra.

Mas a união ainda era frágil.

E a guerra continuou.

Os que fugiram

Milhares abandonaram suas casas.

Alguns fugiram para territórios ainda não alcançados pelos combates. Outros atravessaram oceanos. Famílias inteiras desapareceram das regiões onde seus antepassados haviam vivido durante gerações.

Entre os refugiados estavam grandes grupos de Orinae, muitos deles seguidores do Círculo das Forças Naturais.

Eles procuravam um lugar onde pudessem viver longe da guerra. Encontraram uma ilha quase inacessível entre Vinione e Lasthya. Cercada por uma imensa cordilheira e aberta ao mar por uma única baía, Onaru era desabitada. Os primeiros grupos chegaram trinta anos antes da Pacificação. Outros os seguiram.

Os que chegaram pretendiam sobreviver à guerra.

Acabaram fundando um país.

O momento da escolha

Quando finalmente os diferentes territórios de Nirian compreenderam que nenhum deles venceria sozinho, o planeta já não era o mesmo. A guerra havia atravessado oceanos, destruído cidades, separado famílias, transformado a fé em justificativa para a violência.

E obrigado povos que durante séculos haviam vivido separados a reconhecer uma verdade que mudaria para sempre a história de Nirian: ou lutariam juntos, ou desapareceriam separadamente.

A versão preservada pelos templos

Os registros históricos explicam a Grande Guerra pela expansão do fundamentalismo Zarthaan.

As tradições religiosas contam uma história mais antiga.

Segundo as seguidoras de Ekhena’Niri, as raízes do conflito antecediam a primeira batalha.

Veyronis desejava que Ekhena’Niri gerasse seus filhos.

A Deusa-Mãe recusou-se.

Incapaz de aceitar que a vontade dela pudesse prevalecer sobre a sua, Veyronis tentou impor-lhe o próprio desejo. Ekhena’Niri resistiu e o expulsou do lar dos deuses.

Para ele, a recusa tornou-se humilhação.

E a humilhação, vingança.

Se não podia dominar Ekhena’Niri, tentaria enfraquecê-la.

A tradição afirma que Veyronis passou a sussurrar aos mortais. Prometeu poder aos ambiciosos. Ofereceu grandeza aos ressentidos. Transformou intolerância em missão e desejo de domínio em devoção.

Não obrigou os Nirianos a guerrear.

Incentivou-os.

Os mortais fizeram o restante.

Cronologia da Grande Guerra

A ascensão da Zarthaan e a Grande Guerra abrangem mais de um século da história de Nirian. A religião surgiu quarenta anos antes do início oficial do conflito; a guerra, por sua vez, estendeu-se por sessenta e dois anos. As datas são contadas retrospectivamente a partir da Pacificação, que inaugurou o novo calendário.

  • 102 anos antes da Pacificação: surge em Baleah a fé Zarthaan, dedicada a Veyronis. A rejeição às demais religiões faz parte de sua doutrina desde o princípio.
  • Entre 102 e 80 anos antes da Pacificação: são construídos os primeiros templos de pedra negra. A religião estabelece uma hierarquia própria e conquista influência entre lideranças locais. Sareth Vaelor inicia sua ascensão entre as forças responsáveis pela proteção dos templos.
  • Entre 80 e 63 anos antes da Pacificação: a Zarthaan amplia sua influência sobre o governo de Baleah. Seguidores de outras religiões são afastados de funções de poder. As seguidoras de Ekhena’Niri tornam-se o principal alvo de discursos, restrições e perseguições.
  • 62 anos antes da Pacificação: começam os primeiros ataques sistemáticos contra comunidades Niriistas. Esse momento é tradicionalmente considerado o início da Grande Guerra.
  • 54 anos antes da Pacificação: a perseguição espalha-se pelos demais condados de Vinione. A Zarthaan amplia seus alvos e passa a atacar seguidores do Círculo das Forças Naturais, da Or’Maïra e da Kondaré.
  • 43 anos antes da Pacificação: a guerra alcança Lasthya e Tamar. As províncias Lasthyari tentam defender-se separadamente. Em Tamar, Kala e Adel resistem sem coordenação.
  • 35 anos antes da Pacificação: Tamar aproxima-se do colapso. Kodar An’Ser e Eran Maïr unem as forças Kondaré e Or’Maïra, transformando a resistência local.
  • 30 anos antes da Pacificação: grandes grupos de Orinae abandonam as regiões atingidas pela guerra e chegam à ilha desabitada de Onaru.
  • 24 anos antes da Pacificação: o conflito alcança plenamente o Hemisfério Norte. Ahris, Achen, Flaci e Barad descobrem que a neutralidade já não é possível.
  • 17 anos antes da Pacificação: começam a se formar alianças permanentes entre territórios e religiões. Tündük envia combatentes para auxiliar comunidades Niriistas. No Norte, Ravel Dhor participa da organização das primeiras estratégias conjuntas.
  • 8 anos antes da Pacificação: é formada a primeira aliança planetária organizada contra as forças Zarthaan.
  • 6 anos antes da Pacificação: a Batalha do Vale de Kenan reúne, pela primeira vez em um mesmo campo, grandes forças dos dois hemisférios. A vitória da Aliança marca o início da fase final da guerra.
  • 3 anos antes da Pacificação: começa o Cerco de Baleah. As forças da Aliança avançam sobre o território onde a expansão Zarthaan havia começado.
  • 1 ano antes da Pacificação: os últimos grandes líderes da Zarthaan são derrotados. Sareth Vaelor está entre os comandantes capturados ao final do cerco. Os centros de poder da religião são desfeitos.
  • Ano 1 — A Pacificação: a Aliança declara formalmente encerrado o conflito e inicia a reconstrução de Nirian. A antiga contagem do tempo é abandonada.

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