
Quando eu fazia o curso de Letras, entre 1978 e 1982, embora com habilitação em Língua Inglesa e Literatura, não posso afirmar que li textos originais em inglês. Nossa professora de Literatura de Língua Inglesa, uma estadunidense que já morava há anos no Brasil, parecia não acreditar em nossa competência para ler textos complexos. Foi assim meu primeiro contato com O Moinho à beira do rio Floss, em 1982, meu último ano de curso.
Ao ver o nome da autora, imaginei imediatamente que fosse mais um escritor inglês. Só depois a professora explicou que George Eliot era o pseudônimo de Mary Ann Evans. Para mim, era óbvio que um nome masculino facilitaria a publicação, a divulgação, a comercialização e a conquista de leitores. Eu ainda não me identificava como feminista, mas já tinha uma percepção clara de como funcionava o sistema.
Naquela época, eu tinha pouco mais de vinte anos. Hoje, mais de quarenta anos depois, reler O Moinho à beira do rio Floss foi uma experiência completamente diferente. Eu já não era a estudante tentando compreender um clássico inglês; era uma leitora que passou a vida ensinando literatura e que encontrou, em Maggie Tulliver, perguntas que continuam sem resposta. Antes de falar do romance, porém, vale a pena conhecer um pouco melhor a mulher que o escreveu.
Quem foi George Eliot?
George Eliot, pseudônimo de Mary Ann Evans (1819–1880), foi uma das mais importantes romancistas inglesas do século XIX. Embora não tenha recebido educação universitária — praticamente inacessível às mulheres de sua época —, construiu uma formação intelectual extraordinária como autodidata. Leitora voraz desde a infância, dedicou-se ao estudo da literatura, da filosofia, da história e da religião, formação que marcaria profundamente sua produção literária.

Quando Mary Ann Evans decidiu assinar seus romances como George Eliot, não pretendia esconder apenas o fato de ser mulher. Queria, sobretudo, que seus livros fossem lidos sem os preconceitos que pesavam sobre a literatura escrita por mulheres na Inglaterra vitoriana. A estratégia funcionou: sob um nome masculino, conquistou reconhecimento da crítica e um amplo público leitor. Hoje, entretanto, seu verdadeiro nome ocupa o lugar que sempre lhe pertenceu na história da literatura.
Antes de se dedicar à ficção, Evans destacou-se como tradutora e intelectual. Traduziu para o inglês obras fundamentais do pensamento alemão, como A Vida de Jesus, de David Strauss, e A Essência do Cristianismo, de Ludwig Feuerbach. Também atuou como editora assistente da influente revista The Westminster Review, na qual publicou ensaios e resenhas e participou ativamente dos debates intelectuais de seu tempo.
George Eliot revolucionou o romance inglês ao construir personagens de extraordinária complexidade psicológica. Em vez de dividir o mundo entre heróis e vilões, interessava-lhe compreender as motivações íntimas, os conflitos morais e as consequências das escolhas individuais. Sua ficção parte da convicção de que a vida cotidiana, com seus pequenos gestos e dilemas aparentemente comuns, é o verdadeiro palco das grandes tragédias humanas.
Seus romances abordam temas como os conflitos entre desejo individual e dever moral, as limitações impostas às mulheres na sociedade vitoriana, as desigualdades sociais, as transformações da família e as consequências éticas das escolhas humanas. Embora suas protagonistas frequentemente desafiem as expectativas de seu tempo, Eliot evita respostas simplistas, preferindo explorar a complexidade das decisões humanas e seus efeitos sobre a vida em sociedade.
Sua técnica narrativa, marcada pela profunda análise psicológica dos personagens, influenciou decisivamente o romance moderno. Entre suas principais obras estão Adam Bede (1859), O Moinho à beira do rio Floss (1860), Silas Marner (1861) e Middlemarch (1871–1872), este último amplamente reconhecido como uma das obras-primas da literatura inglesa e um dos romances mais importantes do século XIX.
Foi nesse contexto literário e intelectual que George Eliot publicou O Moinho à beira do rio Floss, em 1860. Inspirado, em parte, por sua própria infância na região rural de Warwickshire, o romance reúne muitos dos temas centrais de sua obra: a educação das mulheres, os conflitos entre desejo e dever, as relações familiares e o alto preço imposto àqueles que desafiam as convenções sociais.
Antes de entrarmos no romance, quero deixar uma pergunta: “O que acontece quando uma menina inteligente nasce em um mundo que espera dela apenas obediência?”
Um pouco de contexto histórico
Para entendermos O Moinho à beira do rio Floss, precisamos lembrar que George Eliot escrevia durante a Era Vitoriana, período correspondente ao reinado da rainha Vitória, entre 1837 e 1901. Foi uma época de profundas transformações econômicas e sociais. A Revolução Industrial alterava a vida cotidiana, a classe média ganhava força e os valores ligados ao trabalho, à respeitabilidade e à moral tornavam-se cada vez mais rígidos.
Para as mulheres, entretanto, essas mudanças eram bastante limitadas. Esperava-se que fossem boas filhas, boas esposas e boas mães. Inteligência, ambição intelectual e independência nem sempre eram vistas como qualidades desejáveis. É justamente nesse mundo que George Eliot coloca Maggie Tulliver.
The Mill on the Floss – O Moinho à beira do rio Floss

Para falar do livro, vou focar nos dois personagens que considero mais importantes, e no que o moinho representa.
Maggie
Maggie Tulliver é uma personagem extraordinariamente inteligente, mas nasce em uma sociedade que não sabe o que fazer com uma menina como ela. Desde a infância, demonstra uma capacidade intelectual superior à do irmão Tom. Ainda assim, por ser mulher, ninguém espera que estude, desenvolva seus talentos ou construa uma vida independente. Espera-se apenas que aprenda a ser obediente, cuide da casa e aceite o papel que lhe foi reservado. O próprio Tom resume essa visão ao afirmar que “gostava muito da irmã e pretendia sempre cuidar dela, fazê-la cuidar da casa e puni-la quando ela agisse mal”. A frase pode soar paternal, mas revela uma relação profundamente desigual: Maggie é tratada como alguém que precisa ser constantemente orientada e corrigida, mesmo sendo, muitas vezes, mais perspicaz do que o próprio irmão.
Outro aspecto que me encanta em Maggie é sua curiosidade insaciável. Ela quer compreender o mundo. Lê tudo o que encontra, faz perguntas, questiona, procura novos conhecimentos. Em uma época em que a educação feminina era limitada e a inteligência das mulheres frequentemente despertava desconfiança, essa curiosidade torna-se quase um ato de resistência. Maggie não aceita passivamente o mundo tal como ele lhe é apresentado; ela deseja entendê-lo. E talvez seja justamente essa sede de conhecimento que a torne tão fascinante para leitores de diferentes épocas.
Mas George Eliot evita transformar Maggie em uma heroína perfeita. Sua inteligência caminha lado a lado com uma enorme intensidade emocional. Maggie sente tudo de maneira profunda: o afeto, a culpa, a humilhação, o desejo de ser amada, o conflito entre aquilo que deseja e aquilo que acredita ser seu dever. Em diversos momentos, mergulha em períodos de profunda tristeza, não porque seja fraca, mas porque vive em permanente tensão entre seus impulsos e as expectativas que a sociedade impõe às mulheres. Essa combinação de inteligência e vulnerabilidade faz dela uma personagem profundamente humana.
O problema de Maggie não é simplesmente ser mulher. É ser uma mulher cuja inteligência e sensibilidade excedem aquilo que sua época considera aceitável.
Ao longo do romance, percebemos que Maggie trava duas batalhas simultâneas: uma contra as limitações impostas pela sociedade e outra contra os próprios conflitos que habitam seu coração. É dessa tensão permanente que nasce a força de O Moinho à beira do rio Floss.
Tom
Não há dúvidas de que existe um profundo amor entre os irmãos, mas ele não se manifesta da mesma forma. Maggie ama Tom de maneira quase incondicional. Mesmo quando critica sua severidade e sua falta de empatia, continua tentando compreendê-lo e preservar o vínculo entre os dois. Já o amor de Tom parece condicionado à obediência da irmã. Enquanto Maggie corresponde ao ideal de “boa moça” que ele considera correto, ela merece seu afeto e sua proteção. Quando acredita que ela transgrediu as normas sociais, porém, ele sequer lhe concede a oportunidade de se explicar, rejeitando-a de forma pública e definitiva.
Algumas leituras entendem que os irmãos se reconciliam no final do romance. Minha interpretação é diferente. Vejo naquele momento menos um perdão do que a força dos laços familiares diante da tragédia. Tom aceita a ajuda de Maggie para escapar da enchente, mas George Eliot deixa em aberto se houve, de fato, uma reconciliação moral entre os dois.
Tom representa a autoridade masculina da sociedade vitoriana. Seguindo o exemplo do pai, assume como seus os mesmos valores, as mesmas rivalidades e até os mesmos inimigos, esperando que Maggie faça o mesmo, sem considerar seus sentimentos ou suas opiniões. Em um episódio que considero bastante revelador, quando está na escola e enfrenta dificuldades em matemática, Maggie oferece ajuda. Sua reação é imediata: responde com ironia, como se fosse impensável que uma menina pudesse auxiliá-lo em uma disciplina considerada própria dos homens. A cena revela que sua sensação de superioridade não nasce apenas de sua personalidade, mas de uma sociedade que ensinava aos homens que sua autoridade não deveria ser questionada.
É justamente isso que torna Tom uma personagem tão convincente. Ele não acredita estar sendo injusto; pelo contrário, está convencido de agir corretamente. Sua moral é rígida, pouco aberta ao diálogo e profundamente influenciada pelos valores de sua época. Quando lê a carta que poderia inocentar Maggie, prefere manter o julgamento que já havia feito a reconsiderar sua posição. Mais do que um irmão autoritário, Tom encarna uma sociedade incapaz de admitir que uma mulher pudesse ser inteligente, independente e, ao mesmo tempo, digna de respeito.
O moinho
Não é por acaso que George Eliot escolheu dar ao romance o nome O Moinho à beira do rio Floss, e não o de sua protagonista. Em minha leitura, o moinho é muito mais do que o cenário onde a história se desenrola; ele representa o mundo ao qual Maggie pertence e do qual, ao mesmo tempo, tenta escapar.
Vejo, pelo menos, três significados simbólicos no moinho. O primeiro é a tradição. A família Tulliver havia construído sua identidade em torno dele durante gerações. Ser moleiro não era apenas uma profissão, mas uma herança familiar, um modo de vida transmitido de pai para filho.
O segundo é a herança. O moinho simboliza o patrimônio material e afetivo da família. Sua perda representa muito mais do que um desastre financeiro: significa a ruína de um legado construído ao longo de várias gerações. Da mesma forma, sua recuperação torna-se uma questão de honra para Tom, quase uma missão de vida.
Por fim, o moinho também pode ser entendido como uma forma de aprisionamento. Metaforicamente, mantém a família presa ao peso das tradições, das expectativas e do passado. Literalmente, está ligado ao rio Floss, cuja enchente transforma aquele espaço, antes símbolo de estabilidade, em um lugar de destruição. Não deixa de ser significativo que George Eliot escolha justamente o rio para romper a aparente solidez daquele universo, lembrando ao leitor que nenhuma ordem humana é permanente.
Talvez seja essa a maior força simbólica do moinho: ele representa, ao mesmo tempo, aquilo que sustenta a família Tulliver e aquilo que acaba contribuindo para sua tragédia.
O final
O desfecho de O Moinho à beira do rio Floss é profundamente trágico e, na minha leitura, revela o alto preço que Maggie paga por não conseguir corresponder às expectativas impostas às mulheres de seu tempo. Ao longo de toda a narrativa, ela tenta conciliar seus desejos, sua inteligência e sua sensibilidade com as rígidas normas sociais que a cercam, mas esse equilíbrio se mostra impossível.
Mais doloroso do que seus próprios conflitos é o julgamento da comunidade. George Eliot mostra como a condenação moral não parte apenas dos homens, mas também de muitas mulheres, que reproduzem os valores da sociedade vitoriana e ajudam a vigiar o comportamento umas das outras. Maggie acaba sendo punida não por aquilo que fez, mas por representar tudo aquilo que sua época não sabia como aceitar.
É justamente por isso que considero seu destino tão comovente. Em nenhum momento o romance oferece a Maggie uma verdadeira possibilidade de liberdade. Restaria a ela renunciar à própria identidade e aceitar viver segundo as expectativas alheias, sempre subordinada ao julgamento dos outros e, em especial, à autoridade do irmão. Para uma personagem cuja maior característica é a busca por compreender o mundo e viver de acordo com a própria consciência, esse talvez fosse o maior dos sacrifícios.
4. Por que ler O Moinho à beira do rio Floss hoje?
Estamos na segunda metade da década de 2020, mas muitas mulheres ainda precisam escolher entre autonomia e aceitação, especialmente quando suas escolhas entram em conflito com as expectativas da família ou da sociedade. Nossa liberdade intelectual é hoje reconhecida pela lei, mas isso significa que ela é plenamente aceita na prática?
Ainda hoje, certas perguntas continuam sendo dirigidas muito mais às mulheres do que aos homens. Quem cuidará dos filhos enquanto ela trabalha? Quando pretende se casar? Quando terá filhos? Ao mesmo tempo, áreas como a engenharia, a física e a astrofísica continuam sendo majoritariamente masculinas. Não porque as mulheres sejam menos capazes, mas porque, durante muito tempo — e, em alguns contextos, ainda hoje —, muitas cresceram ouvindo que determinados conhecimentos ou profissões “não eram para elas”.
É justamente por isso que Maggie Tulliver continua sendo uma personagem tão atual. Sua inteligência, sua curiosidade insaciável e sua recusa em aceitar passivamente os limites impostos à sua condição de mulher fazem dela uma protagonista que atravessa os séculos. Maggie nos lembra do enorme desperdício que uma sociedade produz quando desencoraja meninas e mulheres a desenvolver plenamente seus talentos.
Talvez seja essa a grande razão para ler George Eliot hoje. The Mill on the Floss não fala apenas da Inglaterra vitoriana. Fala de todas as sociedades que, de maneiras diferentes, ainda tentam definir até onde uma mulher pode ir, o que pode desejar e quem tem o direito de se tornar.
Mais de 160 anos depois de sua publicação, The Mill on the Floss continua nos fazendo a mesma pergunta: o que acontece quando uma sociedade teme mais a inteligência de uma mulher do que a injustiça cometida contra ela?
E, para encerrar, quero deixar vocês com uma frase de George Eliot que me acompanhou durante toda a leitura.
“A opinião pública, nesses casos, é sempre do gênero feminino — não a do mundo.”
Mais de um século e meio depois, talvez ainda valha a pena perguntar quanto desse julgamento continua recaindo, sobretudo, sobre as mulheres.
Para continuar a leitura
Se Maggie Tulliver nos leva a pensar sobre inteligência feminina, autonomia, família e os limites impostos às mulheres, algumas outras obras podem ampliar esse diálogo:
Jane Eyre, de Charlotte Brontë — pela construção de uma protagonista que luta para preservar sua independência e sua dignidade em uma sociedade que espera submissão feminina.
The Awakening, de Kate Chopin — pela reflexão sobre desejo, casamento e a dificuldade de uma mulher construir uma vida que corresponda aos próprios desejos.
The Story of an African Farm, de Olive Schreiner — pela crítica às instituições e às expectativas que limitam a liberdade intelectual e pessoal das mulheres.
Middlemarch, de George Eliot — para continuar explorando a extraordinária capacidade de Eliot de representar mulheres inteligentes confrontadas com as convenções de seu tempo.
A falência, de Júlia Lopes de Almeida — para trazer essa discussão para a literatura brasileira e observar como família, casamento, dinheiro e posição social também condicionam a vida das mulheres.

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