
Há livros que envelhecem; outros parecem ficar cada vez mais atuais. Talvez isso aconteça porque suas autoras foram capazes de enxergar conflitos humanos muito antes de seu tempo. Foi o caso de Kate Chopin (1850–1904). Escrevendo no final do século XIX, quando as mulheres tinham pouca liberdade para definir seus próprios caminhos, ela criou personagens que questionavam as expectativas impostas ao casamento, à maternidade e à identidade feminina. Seu romance mais conhecido, The Awakening, causou escândalo quando foi publicado, em 1899. Mais de um século depois, porém, suas perguntas continuam ecoando entre leitores e leitoras que ainda se perguntam como conciliar amor, responsabilidade e autonomia.

Domínio Público
Uma das questões mais inquietantes de The Awakening, de Kate Chopin, é sua reflexão sobre o que acontece quando uma mulher percebe que sua identidade foi reduzida aos papéis que desempenha para os outros. Publicado em 1899, o romance continua atual justamente por abordar um conflito que muitas pessoas ainda enfrentam: como amar profundamente sem deixar de ser quem se é.

Domínio Público.
Logo no início da narrativa, Léonce Pontellier observa a esposa como se ela fosse uma posse danificada pelo sol: “Você está queimada além do reconhecimento”, comenta ele, olhando para Edna “como se olha para uma valiosa propriedade pessoal que sofreu algum dano”. A comparação não é casual. Ela revela uma estrutura social em que a mulher é vista menos como sujeito e mais como objeto pertencente ao marido.
À medida que a história avança, Edna começa a questionar essa lógica. Seu despertar não é apenas romântico ou emocional; é, sobretudo, existencial. Ela passa a perceber que existe uma diferença entre amar e pertencer. Essa distinção aparece de forma contundente quando afirma: “Eu daria o essencial; daria meu dinheiro, daria minha vida por meus filhos; mas não daria a mim mesma.”
A frase pode soar chocante, especialmente porque a maternidade costuma ser associada ao sacrifício absoluto. No entanto, Edna não está negando o amor pelos filhos. Ela está rejeitando a ideia de que amar exige o desaparecimento completo da própria identidade. Há uma diferença entre oferecer cuidado, proteção e dedicação e abrir mão da própria individualidade.
Essa reflexão permanece relevante porque muitas pessoas, especialmente mulheres, ainda são ensinadas a medir seu valor pela capacidade de servir aos outros. Filhos, parceiros, pais e amigos podem ocupar lugares fundamentais em nossas vidas, mas nenhum relacionamento deveria exigir que deixemos de existir como indivíduos.
Por isso, uma das passagens mais significativas do romance ocorre quando Edna conclui que, acontecesse o que acontecesse, jamais pertenceria a ninguém além de si mesma. Trata-se de uma afirmação radical de autonomia. Não significa isolamento, egoísmo ou ausência de amor. Significa reconhecer que a identidade não deve ser entregue nem mesmo às pessoas que mais amamos.
Talvez essa seja a grande força de The Awakening. Kate Chopin nos convida a refletir sobre uma verdade difícil, mas necessária: o amor saudável não exige posse, e a dedicação genuína não requer apagamento. Podemos cuidar dos outros, apoiar aqueles que amamos e até fazer sacrifícios por eles. Mas não precisamos renunciar àquilo que nos torna únicos. Afinal, perder-se de si mesmo nunca deveria ser o preço do amor.
No entanto, o romance vai ainda mais longe. O aspecto mais doloroso do despertar de Edna é perceber que nem mesmo o homem por quem se apaixonou consegue compreendê-la plenamente. Durante boa parte da narrativa, Robert parece representar a possibilidade de uma vida diferente, construída sobre o amor e a escolha. Contudo, ao final, Edna descobre que ele também está preso às convenções de sua época.
Robert consegue amar Edna enquanto ela é um sonho, uma fantasia romântica, uma possibilidade distante. O que ele não consegue aceitar é a mulher concreta que decidiu pertencer apenas a si mesma. Para ele, ainda existe a necessidade de enquadrá-la nas regras sociais: esposa, amante, mas nunca verdadeiramente livre.
Essa desilusão torna o romance ainda mais poderoso. Kate Chopin sugere que a busca pela própria identidade não pode depender da validação de um homem, por mais apaixonado que ele esteja. A liberdade que Edna procura não está no casamento nem em um novo amor. Ela está no reconhecimento de que nenhuma relação deve exigir a renúncia daquilo que somos.
Muitas narrativas românticas terminam quando a protagonista encontra “o homem certo”. Chopin, escrevendo no século XIX, parece perguntar algo muito mais incômodo: e se o problema não for encontrar o homem certo? E se o verdadeiro desafio for construir uma vida em que a mulher exista como sujeito completo, independentemente dos homens que ama?
Mais de um século depois, essa pergunta continua ecoando. Talvez porque eu mesma a tenha carregado comigo durante boa parte da vida.
Quando li The Awakening pela primeira vez, em 1994, Edna não era apenas uma personagem literária. Ela dialogava diretamente com uma questão que eu estava vivendo. Não era uma abstração acadêmica. Naquele momento, eu havia tomado uma decisão que muitas pessoas ao meu redor consideravam incompatível com a maternidade: deixar minha cidade natal para cursar um mestrado em Santa Catarina, levando comigo a responsabilidade de criar quatro filhos.
As perguntas que me faziam eram reveladoras:
— Quem vai cuidar das crianças?
— E a escola delas?
— Como você vai dar conta?
Curiosamente, quase ninguém perguntava:
— E o seu futuro?
— E os seus sonhos?
— E o que você quer para si mesma?
É exatamente essa assimetria que Chopin expõe. A sociedade aceita que uma mãe sacrifique seus projetos pessoais pelos filhos; o que causa desconforto é quando ela afirma que também possui uma identidade própria, uma vida intelectual, profissional ou criativa que merece existir.
Minha experiência, de certa forma, parece até contradizer uma leitura comum do romance. Eu não abandonei meus filhos para realizar meus projetos. Eu trouxe meus filhos comigo. Eu assumi, simultaneamente, a maternidade e o desafio acadêmico. Talvez minha trajetória mostre que o dilema não precisa ser “filhos ou identidade”; talvez o problema surja quando a sociedade insiste que a mulher escolha apenas um dos dois.
Talvez seja por isso que a frase de Edna continue tão poderosa:
“Eu daria minha vida por meus filhos; mas não daria a mim mesma.”
Muita gente interpreta essa fala como egoísmo. Talvez porque eu estivesse vivendo dilemas semelhantes, sempre a enxerguei como uma defesa da própria identidade. Dar a própria vida é um ato extremo e pontual. Dar a si mesma significa desaparecer aos poucos, deixar que a própria identidade seja consumida pelas expectativas alheias.
Impressionante é encontrar o mesmo debate trinta anos depois.
Mudaram as tecnologias, mudaram os discursos, aumentou a presença feminina na universidade e no mercado de trabalho, mas a cobrança para que as mulheres conciliem tudo de forma quase sobre-humana continua existindo. Ainda hoje, quando uma mãe investe na carreira, no estudo ou em um projeto pessoal, frequentemente precisa justificar uma escolha que dificilmente seria questionada se fosse feita por um pai.
Talvez seja justamente por isso que The Awakening permanece atual. Não porque nada tenha mudado, mas porque a pergunta central de Edna ainda não recebeu uma resposta definitiva:
Como amar profundamente os outros sem deixar de existir para si mesma?
Reler The Awakening mais de trinta anos depois foi como reencontrar uma velha conhecida. Muita coisa mudou em minha vida desde aquela primeira leitura. Concluí o mestrado, fiz doutorado, vi meus filhos crescerem e construí o caminho que desejava para mim. Ainda assim, surpreendeu-me perceber que a pergunta central de Edna continua atual. Talvez porque, apesar de todas as transformações sociais das últimas décadas, muitas mulheres ainda precisem justificar o desejo de serem mais do que os papéis que lhes foram atribuídos. Foi por isso que o romance de Kate Chopin me tocou em 1994. E talvez seja por isso que ele continua me tocando hoje. Porque, passados mais de trinta anos, continuo acreditando que podemos amar profundamente aqueles que nos cercam sem abrir mão de quem somos.
Leituras sugeridas
Uma das coisas que mais gosto em literatura é descobrir como diferentes escritoras, em épocas e lugares distintos, acabam dialogando entre si. As perguntas que Kate Chopin fez em The Awakening não ficaram restritas ao final do século XIX. Elas reaparecem em romances e contos que tratam da maternidade, da liberdade, da construção da identidade e da busca por um lugar próprio no mundo. Para quem se interessou por essas questões, seguem algumas sugestões de leitura.
Ao clicar em cada título, você será direcionado ao texto em domínio público, quando for o caso, ou a um site de vendas, indicado apenas como referência — já que o livro pode ser adquirido na livraria de sua preferência.
Para quem quer continuar lendo Kate Chopin
- The Story of an Hour
Um conto curtíssimo e brilhante sobre casamento, liberdade e as expectativas impostas às mulheres. Talvez a melhor porta de entrada para a obra de Chopin depois de The Awakening. - A Pair of Silk Stockings
Uma reflexão delicada sobre desejo, consumo, maternidade e a breve recuperação de uma identidade própria em meio às obrigações familiares.
Contemporâneas de Chopin
- The Yellow Wallpaper
Se Edna luta para preservar sua identidade, a narradora deste conto luta para não perdê-la completamente. Uma obra fundamental sobre maternidade, saúde mental e silenciamento feminino. - A Room of One’s Own
Embora tenha sido publicado algumas décadas depois, desenvolve uma questão que está no coração de The Awakening: o que uma mulher precisa para construir uma vida intelectual e criativa própria?
Clássico do século XIX
- Jane Eyre
Outra protagonista que se recusa a abrir mão de sua dignidade e autonomia, mesmo quando o amor parece exigir isso.
Leituras mais contemporâneas
- Beloved
Um romance muito mais duro e complexo, mas que oferece uma das reflexões mais profundas da literatura sobre maternidade, sacrifício e identidade. - The Bell Jar
Sobre saúde mental, expectativas sociais e a dificuldade de encontrar um lugar próprio no mundo. - The Handmaid’s Tale
Explora de forma radical o controle social sobre os corpos e os destinos das mulheres.
Outras sugestões que dialogam muito com The Awakening
A Hora da Estrela — Clarice Lispector
A história de uma mulher invisibilizada pela sociedade, em busca de sentido e reconhecimento.
Ciranda de Pedra — Lygia Fagundes Telles
O amadurecimento de uma jovem que tenta encontrar seu lugar em uma família marcada por convenções e silêncios.
Memorial de Maria Moura — Rachel de Queiroz
Uma protagonista que desafia as expectativas de seu tempo para construir a própria independência.
Cada uma delas, à sua maneira, trata da mesma pergunta que atravessa o romance de Kate Chopin:
Como uma mulher pode permanecer fiel a si mesma em um mundo que constantemente tenta defini-la por outros papéis?

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