
Charlotte Brontë (1816-1855) é uma das mais famosas escritoras de língua inglesa, parte incontornável do cânone, lida e ensinada amplamente nos cursos de literatura. Dona de uma imaginação singular, produziu — juntamente com as irmãs Emily e Anne — livros que mudaram a história da literatura e moldaram leitores e leitoras ao longo de quase dois séculos.
No século XIX, especialmente durante a Era Vitoriana, não era considerado apropriado que mulheres publicassem obras literárias. A pena era vista como um instrumento masculino; às mulheres caberia ler, ou, no máximo, escrever cartas e diários. Filhas de um pastor anglicano conservador, as irmãs Brontë optaram por pseudônimos andróginos — Currer, Ellis e Acton Bell — que eram percebidos como masculinos pelos leitores da época.
Quando a crítica começou a insinuar que Jane Eyre, Wuthering Heights e The Tenant of Wildfell Hall eram obras de um mesmo autor, Charlotte tomou a decisão ousada de se apresentar ao editor. Assim, a segunda edição de Jane Eyre finalmente trouxe seu nome verdadeiro.
Nenhuma das irmãs Brontë chegou à velhice, mas tornaram-se imortais no coração de milhões de leitores, que ainda hoje encontram nas suas páginas força, intensidade e reconhecimento.

A primeira vez que ouvi falar de Jane Eyre eu ainda era criança. Minha mãe, sabendo da minha paixão pela leitura, falava com carinho dos livros de que gostava antes de casar. Entre eles estava Jane Eyre, embora ela dissesse que não sabia o que havia acontecido com seu exemplar. A curiosidade cresceu — mas eu ainda não o li naquela época. Curiosamente, não havia um exemplar na vasta biblioteca de meu pai.
Na adolescência, a história reapareceu quando começou a ser transmitida uma novela de rádio chamada — se a memória não me falha — A Porta Fechada. Segundo minha mãe, o título aludia ao sótão onde vivia trancada Bertha Mason, a célebre “louca do sótão”. Ouvi a novela com fascínio absoluto, mesmo sabendo que não era o livro.
Durante a graduação em Letras na UFPI, li uma versão simplificada de Jane Eyre. A professora, estadunidense, duvidava de nossa capacidade de ler textos longos em inglês. A redução me decepcionou profundamente: soava como mais uma historinha romântica de final feliz — o que Jane Eyre nunca foi.

Foi somente em 1994, ao iniciar o mestrado em Língua Inglesa, que conheci o romance em sua inteireza. A disciplina optativa Women Writers — ministrada pela extraordinária professora Susana Borneo Funck, que depois se tornou minha orientadora — já me encantava pelo título. E o primeiro livro da lista era… Jane Eyre.
Lembro-me do susto: era o maior livro em língua inglesa que eu já tinha visto. E teríamos apenas duas semanas para lê-lo. Mas mergulhei sem hesitar.
Essa leitura transformou minha vida de uma forma que mal consigo descrever. Trinta e um anos depois, continua sendo meu livro favorito. E tento explicar por quê.
Identifiquei-me profundamente com a força daquela jovem que sofreu tanto e nunca se deixou quebrar, nunca abriu mão de si. Eu havia me divorciado poucos anos antes e sofrido preconceitos por isso; a determinação de Jane me inspirou.
Sei que é ficção — mas para mim, Jane sempre foi real. Amiga, companheira, referência. Quando enfrento situações difíceis, lembro-me da coragem dela de simplesmente dizer não.
O momento mais marcante dessa coragem é quando ela decide deixar Thornfield, recusando-se a se tornar amante de Rochester. Ele implora, mas ela permanece firme “aos princípios recebidos quando estava sã”:
Hei de seguir a lei dada por Deus e sancionada pelos homens. Hei de manter os princípios que recebi quando estava lúcida — e não insana, como me sinto agora. As leis e os princípios não existem para os momentos sem tentação: existem para instantes como este, quando corpo e alma se rebelam contra sua dureza; são rígidos — e invioláveis permanecerão (1994, p. 314).
Na mesma cena, há uma das declarações de autonomia mais poderosas da literatura ocidental:
Eu me cuido. Quanto mais solitária, quanto mais sem amigos, quanto mais desamparada eu estiver, mais me respeitarei (1994, p. 314).
E, antes disso, no clímax da relação entre ambos, quando ele tenta prendê-la num destino que não é o dela:
Não sou um pássaro, e nenhuma rede me aprisiona; sou um ser humano livre, com vontade independente (1994, p. 252).
A primeira frase do último capítulo é talvez a sentença mais conhecida do livro, tendo sido já tema de dissertações e teses ao redor do mundo:
Leitor, eu me casei com ele. Tivemos um casamento discreto: ele e eu, o pastor e o sacristão estávamos sozinhos presentes (1994, p. 444).
Essa frase tem muita força porque Jane escolheu esse casamento — e não o aceitou quando lhe teria custado a própria integridade. No século XIX, mulheres não escolhiam o marido, muito menos a própria vida. Jane escolheu. Jane decidiu. Jane tomou o leme de si mesma.
E isso me abriu portas internas que eu nem sabia que existiam.
Talvez seja por isso que Jane Eyre nunca tenha me deixado: porque é uma história sobre autonomia feminina, dignidade e fidelidade a si mesma — mesmo quando tudo ao redor exige silêncio e submissão.
A cada releitura, lembro-me de que, como Jane, também podemos dizer “não”, podemos escolher, podemos caminhar. E, ao fim, podemos narrar a própria vida com a firmeza com que Charlotte Brontë narrou a de sua heroína.
Como Jane Eyre foi publicado em 1847 e está em domínio público, é possível acessar o texto completo em inglês gratuitamente. Abaixo está um link confiável:
https://www.gutenberg.org/ebooks/1260
Embora o texto original em inglês de Jane Eyre esteja em domínio público (publicado em 1847), a tradução em português pode não estar em domínio público — isso depende da data e das condições de publicação da tradução específica. Por isso, recomendamos que, se você quiser uma versão gratuita e legal para leitura, prefira a edição em inglês no Project Gutenberg.
Se você quiser ler Jane Eyre em português, há várias edições disponíveis para compra no Brasil — desde versões econômicas até edições comentadas ou de bolso.
Se preferir, também é possível encontrar versões usadas em sebos online ou lojas especializadas. Eu sugiro aqui alguns sites para compra, mas claro que você sempre pode adquirir o livro em sua livraria favorita:
Leituras Indicadas:
Emily Brontë – Wuthering Heights (O morro dos ventos uivantes) – Um romance radical, feroz e nada domesticado, que continua desafiando leituras românticas simplificadoras.
Anne Brontë – The Tenant of Wildfell Hall – romance protofeminista que expõe o casamento como instituição de controle e silenciamento feminino.
George Eliot – Middlemarch – Um romance monumental sobre escolhas, frustrações e o custo social da ambição feminina.
Elizabeth Gaskell – Cranford – Uma narrativa delicada e irônica sobre uma comunidade majoritariamente feminina e suas formas de resistência cotidiana.
Mary Shelley – Frankenstein – Muito além da ficção científica: um romance sobre criação, exclusão e responsabilidade — escrito por uma jovem mulher no início do século XIX.
Olive Schreiner – The Story of an African Farm – Um romance protofeminista escrito a partir da África do Sul colonial, que questiona gênero, religião e poder.
Harriet Jacobs – Incidents in the Life of a Slave Girl – Autobiografia fundamental escrita por uma mulher negra, ex-escravizada, sobre corpo, maternidade e liberdade.
Jean Rhys – Wide Sargasso Sea – Romance que reimagina Jane Eyre a partir da perspectiva de Bertha Mason, dando voz à mulher silenciada no sótão. Um texto fundamental para leituras pós-coloniais e feministas do cânone vitoriano.
Marina DelVecchio – Dear Jane – Romance contemporâneo em que uma adolescente adotada escreve cartas a Jane Eyre, encontrando na personagem um espelho para lidar com trauma, identidade e pertencimento.
Tracy Chevalier (org.) – Reader, I Married Him – Coletânea de contos de escritoras contemporâneas inspirados na célebre frase de Jane Eyre, explorando amor, autonomia e reescritas do imaginário brontëano.
Sheila Kohler – Becoming Jane Eyre – Romance histórico que ficcionaliza a vida de Charlotte Brontë e os caminhos emocionais e intelectuais que culminaram na criação de Jane Eyre.

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