Constance Fenimore Woolson (1840–1894) foi uma escritora norte-americana bastante reconhecida em seu tempo, embora sua obra tenha sido progressivamente esquecida depois de sua morte. Nascida em New Hampshire e criada em Cleveland, Ohio, Woolson começou a publicar profissionalmente depois da morte do pai, em 1869. Após a morte da mãe, em 1879, mudou-se para a Europa, onde viveu até o fim da vida e conviveu com escritores como Henry James. Sua produção inclui contos, romances, poesia e relatos de viagem, e uma preocupação recorrente em sua obra são as limitações impostas às mulheres, particularmente às mulheres que desejavam construir uma vida intelectual e artística. Anne, seu primeiro romance de grande repercussão, foi publicado inicialmente em série e depois em livro, em 1882.

Constance Fenimore Woolson (Life time: 1800s) – Original Public Domain

Há livros que parecem pertencer a uma época muito distante da nossa até que, de repente, uma passagem nos faz perceber o quanto determinadas questões permanecem atuais. Anne, de Constance Fenimore Woolson, é um desses livros. A princípio, podemos lê-lo como uma história de amor, de perdas e de dificuldades familiares. Mas, à medida que acompanhamos a trajetória de sua protagonista, percebemos que Woolson está interessada em algo mais complexo: a formação de uma mulher que, apesar das circunstâncias, procura construir a própria vida.

Capa da 1ª Edição (1882).

Anne Douglas já havia perdido a mãe quando seu pai morre. Os quatro filhos pequenos deixados pela segunda esposa do pai ficam sob a responsabilidade da família, e Anne, embora seja ainda jovem, assume uma função que não lhe caberia naturalmente: cuidar dos irmãos mais novos. A situação poderia conduzi-la à dependência de algum homem que assumisse por ela as responsabilidades da família. E, de fato, essa possibilidade aparece mais de uma vez.

Anne, porém, escolhe outro caminho. Ela decide estudar para tornar-se professora, uma das poucas profissões consideradas adequadas para uma mulher de sua época e, sobretudo, uma possibilidade concreta de obter algum grau de independência econômica. Para conseguir uma vaga na escola, precisa submeter-se à tia-avó, Miss Vanhorn, e aceitar uma situação que a humilha. Ainda assim, ela o faz porque sabe que precisa construir para si uma forma de sustento.

Essa escolha é importante justamente porque não é apresentada como uma vitória fácil. A autonomia feminina tem um preço. Anne depende de pessoas que possuem poder sobre sua vida e precisa negociar com elas, mas não confunde essa dependência circunstancial com a aceitação de que outros decidam seu destino.

Isso fica ainda mais evidente quando sua tia-avó pretende conduzi-la a um casamento que lhe garantiria segurança. Anne poderia aceitar. Seria, afinal, a solução mais conveniente para uma jovem sem fortuna e responsável por irmãos menores. Mas ela se recusa. E a consequência é concreta: perde o apoio da tia.

O episódio mostra uma personagem que não rejeita o casamento por princípio. Anne deseja amar e ser amada. O que ela rejeita é a ideia de que o casamento deva ser utilizado como instrumento para determinar sua vida. Ela prefere enfrentar a insegurança a entregar a outra pessoa o direito de decidir por ela.

É nesse ponto que uma passagem aparentemente secundária do romance se torna especialmente significativa. O narrador observa que Anne não teve, durante a infância, uma amiga de sua idade com quem pudesse compartilhar suas confidências, especulações e fantasias. Essas conversas, diz Woolson, seriam os primeiros passos para o pensamento independente e para a formação da consciência individual das meninas:

““os primeiros passos em direção ao pensamento independente”

E, logo depois:

“os primórdios, de fato, de sua própria consciência e vida próprias.”

Anne tinha apenas Rast como amigo de infância, mas isso não produzia o mesmo efeito. Rast “sempre assumia a liderança”: ele tinha suas próprias opiniões em abundância, de modo que não havia tempo para discutir ou sequer perguntar pelas opiniões dela.

A observação é extraordinariamente reveladora. Woolson percebe que a formação da individualidade feminina depende também da existência de espaços em que as meninas possam falar, imaginar, especular e construir suas próprias opiniões. Não se trata de uma defesa abstrata da amizade entre mulheres: trata-se do reconhecimento de que a experiência compartilhada entre elas pode participar da formação de uma consciência autônoma.

Essa questão reaparece de maneira ainda mais interessante na relação de Anne com Helen.

Anne apaixona-se por um homem que também é amado por uma mulher a quem considera sua amiga. Em vez de transformar essa situação em uma disputa, como tantas narrativas fizeram — e continuam fazendo — com mulheres que desejam o mesmo homem, Anne recua. Ela não deixa de sofrer por isso, mas decide que não colocará seu desejo acima da amizade.

É uma escolha particularmente significativa em uma sociedade que frequentemente ensinava às mulheres que outras mulheres eram suas concorrentes: pela beleza, pelo casamento, pela posição social, pela atenção masculina. Woolson oferece outra possibilidade. Duas mulheres podem desejar a mesma pessoa sem que necessariamente uma precise destruir a outra para obtê-la.

Anne não é uma personagem sem ciúmes, sem sofrimento ou sem desejos próprios. Justamente por isso sua decisão é importante. Sua solidariedade não nasce da ausência de conflito interior, mas da capacidade de reconhecer a humanidade e os sentimentos de outra mulher.

E Woolson leva essa solidariedade ainda mais longe quando Helen morre assassinada e Heathcote, o homem que Anne amava, é acusado do crime.

Nesse momento, Anne poderia simplesmente afastar-se. Poderia aceitar a acusação, sobretudo porque o homem que ama já está ligado à morte de sua amiga. Mas ela não aceita a versão apresentada pelas autoridades. Se Heathcote é inocente, alguém precisa descobrir o verdadeiro assassino.

É então que o romance surpreende novamente.

Anne, Miss Lois e Miss Teller formam uma espécie de pequena equipe de investigação. O narrador chama aquilo explicitamente de “um propósito feminino”, baseado na fé de que Heathcote é inocente. Anne percebe que os detetives já haviam seguido as pistas disponíveis e decidido a partir de uma premissa. Elas fariam o contrário: não aceitariam nenhuma pista como ponto de partida, exceto a certeza da inocência de Heathcote.

Anne afirma então que as mulheres, às vezes, conseguem “predizer uma verdade” por intuição, mesmo contra todas as probabilidades. Mas o que torna a passagem interessante é que Woolson não deixa essa “intuição feminina” permanecer como algo mágico ou irracional. Anne observa, compara, questiona e chega a conclusões. Sua capacidade de investigação não é menor por ser feminina; ao contrário, é justamente ela quem percebe aquilo que os investigadores oficiais não conseguiram perceber.

Assim, a mulher, que no início do romance precisava humilhar-se para conseguir uma oportunidade de estudar, termina ocupando um lugar completamente diferente. Anne não é apenas objeto das decisões dos outros. Ela trabalha, sustenta suas escolhas, recusa um casamento que não deseja, renuncia ao homem que ama para não ferir uma amiga e, finalmente, participa ativamente da descoberta da verdade sobre um assassinato.

Talvez seja essa a característica que mais me chamou a atenção em Anne: Woolson não precisa transformar sua protagonista em uma mulher que rejeita todas as convenções de seu tempo para apresentar uma personagem profundamente interessada em autonomia. Anne não deixa de desejar amor, casamento, família ou amizade. O que ela não aceita é que esses desejos sejam utilizados para retirar dela a possibilidade de escolher.

E talvez seja por isso que aquela observação sobre as meninas e suas conversas seja tão importante para compreender o romance. Woolson fala dos inícios da consciência individual — os começos da consciência e da vida próprias. Em Anne, acompanhamos justamente o desenvolvimento dessa consciência: uma jovem que começa sendo definida pelas circunstâncias familiares e que, pouco a pouco, aprende a definir a própria vida.

E, ao fazer isso, Constance Fenimore Woolson constrói também uma bela defesa da solidariedade entre mulheres. Não uma solidariedade idealizada, sem conflitos ou dores, mas aquela que permite que uma mulher reconheça na outra não uma rival, e sim uma pessoa com desejos, sofrimentos e direito à própria vida.

Talvez seja justamente por isso que Anne seja muito mais do que uma história de amor. É também uma história sobre aprender a pensar, escolher e agir por si mesma.

Por que ler Anne no século XXI? Porque, ao acompanhar uma jovem mulher do século XIX tentando descobrir como viver a própria vida, nós podemos perceber que a luta pela autonomia não começou conosco. E porque Woolson nos lembra de uma coisa que talvez ainda precisemos aprender: mulheres não precisam ser rivais para conquistar espaço, e uma mulher não precisa deixar de amar para ser livre.

Sugestões de leitura

Ao clicar em cada título, você será direcionado ao texto em domínio público, quando for o caso, ou a um site de vendas, indicado apenas como referência — já que o livro pode ser adquirido na livraria de sua preferência.

  • Jane Eyre — Charlotte Brontë
    Talvez seja a aproximação mais evidente. Jane também precisa construir sua independência em um mundo que oferece às mulheres poucas possibilidades de escolha. Como Anne, ela deseja amar, mas não aceita que o amor implique abrir mão da própria autonomia.
  • Middlemarch — George Eliot
    Um romance especialmente interessante para pensar as possibilidades — e os limites — da vida intelectual e afetiva das mulheres no século XIX. Dorothea Brooke, como Anne, precisa negociar seus desejos com as expectativas sociais que recaem sobre ela.
  • The Awakening (O despertar) — Kate Chopin
    Edna Pontellier questiona o papel de esposa e mãe que a sociedade lhe atribui e procura descobrir quem é para além dessas funções.
  • The Woman in White (A mulher de branco) — Wilkie Collins
    O romance apresenta personagens femininas fundamentais para a construção do mistério e permite uma conversa interessante com a investigação conduzida por Anne, Miss Lois e Miss Teller.
  • Wide Sargasso Sea (Vasto mar de sargaços) — Jean Rhys
    Uma possibilidade muito boa para ampliar a discussão sobre mulheres cuja identidade é moldada — e limitada — pelos homens e pelas estruturas sociais ao seu redor. É uma leitura particularmente interessante em diálogo com Jane Eyre.

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