
Miguel,
Que bom que consegui seu endereço. Espero que você receba e leia esta carta.
Lembro-me de nossas brincadeiras, quando eu tinha 6 anos, talvez 7. Você era mais velho, devia ter seus 9 anos, e parecia sempre querer me proteger. Depois entendi que era isso mesmo: sua mãe lhe dizia para cuidar de mim. Eu era a filha dos donos da casa; sua mãe, nossa empregada; e seu pai, o caseiro que cuidava de nosso sítio. Os finais de semana e as férias que passávamos juntos são as melhores lembranças da minha infância.
Lembro-me de que, em dias de chuva, nós líamos os livros de Júlio Verne. Eu dizia que queria ser astronauta ou pirata; você sorria e dizia que eu seria igual à minha mãe, esposa de algum homem rico. Já você, ah, você estudaria e seria doutor. Eu sabia que você tinha razão quanto a mim, mas não queria aceitar. Eu queria viver aventuras, não viver como minha mãe, sempre fazendo todas as vontades do marido. Não imaginava que meu destino já estava selado.
O ano era 1950 quando nos vimos pela última vez. Eu tinha 15 anos, e meu pai havia arranjado um casamento para mim com um homem quase da idade dele. Aquele seria meu último final de semana no sítio. Pedi a meu pai que tirasse uma fotografia nossa; ele disse que era bobagem, mas minha mãe o convenceu:
— Tire a fotografia, João. Eles nunca mais se verão. Logo ela esquece essa bobagem e rasga a foto.
Recebi a fotografia revelada na véspera de meu casamento, entregue por minha mãe, que me disse:
— Seu pai não queria que você ficasse com esta foto. Eu disse a ele que a rasguei. Você deveria fazer isso e esquecer este rapaz. A partir de amanhã, você será uma mulher casada e não terá tempo para bobagens.
Olhei bem a fotografia. Estávamos na frente de nossa casa: você, bem mais alto do que eu, com roupas simples de trabalhador rural, o chapéu de palha nas mãos, os cabelos crespos e curtos, e um sorriso que eu sabia ser apenas para a foto. Eu, à sua direita, com um vestido de saia rodada abaixo dos joelhos, segurava seu braço e também sorria para a câmera. Encostei a foto em meu peito e fiz, ali mesmo, uma promessa: eu nunca lhe esqueceria, ainda que nunca mais o visse.
Não vou dizer que tive um mau marido, mas também não posso dizer que era bom. Era possessivo e não me deixava sair de casa, nem para visitar minha família. Por anos, eu só os via nos aniversários, nos natais ou quando tinha um filho. Tive seis: três meninos e três meninas. E minha vida era dedicada a eles.
Fui casada por 30 anos. Durante todo esse tempo, nunca tive notícias suas. Também nunca perguntei. Não havia como: meu marido não me deixava sozinha com outras pessoas, e eu sabia que ele poderia ser violento se fosse provocado. Nunca o foi comigo ou com os filhos, mas eu o vi agredir um pobre cachorro que cruzou seu caminho num momento ruim. Nunca o desafiei. Fui covarde, talvez. Mas o que poderia eu fazer? Eu e as crianças dependíamos dele para tudo; nem dinheiro para as compras de casa ele me dava. Tudo era ele quem resolvia.
Com meus filhos já crescidos, cada um com sua própria família, éramos novamente só nós dois. Mas isso não durou muito. Um dia, ao perceber que ele demorava a ir se deitar, fui chamá-lo em seu escritório e o encontrei morto. O médico disse que fora um enfarte fulminante.
Assim, fiquei viúva aos 45 anos, morando sozinha em uma casa enorme. Vivi dois anos sozinha naquela casa. Meus filhos me sugeriram vendê-la e comprar uma menor, mais próxima de onde eles moravam. Concordei. E foi ao arrumar as coisas para me mudar que encontrei nossa fotografia, amarelada pelo tempo, dentro de um antigo livro de Júlio Verne.
Decidi que precisava saber de você. Meus pais já haviam falecido, mas meu irmão mais velho ainda morava naquele mesmo sítio onde brincamos tanto, quando eu ainda acreditava em magia. Liguei para ele.
Fiquei sabendo que você tinha conseguido realizar seu sonho e que era um médico muito respeitado na pequena cidade ali perto. Procurei nas Páginas Amarelas do catálogo telefônico e achei seu endereço.
Escrevo esta carta apenas para confirmar minha promessa: eu nunca me esqueci de você. A vida nos afastou por 30 anos, mas, se você quiser me ver, é só vir. Moro agora em uma casinha menor e voltei a estudar. Não serei astronauta nem pirata, mas talvez me torne professora.
Agora só me resta esperar.
Com carinho,
Ana Cristina

Ana Cristina saiu da agência dos correios com a sensação de ter se livrado de um enorme peso. Não sabia o que poderia acontecer, se Miguel lhe responderia ou não, mas finalmente se sentia livre.
Passaram-se vários dias. Em sua vida de estudante — tentando recuperar o tempo perdido, pois havia finalmente concluído o segundo grau e se preparava para o vestibular — Ana Cristina tentava não pensar na carta que enviara. Era melhor não criar expectativas.
No domingo, ao voltar da missa das oito da manhã, enquanto pensava no que prepararia para o almoço com a família, ouviu a campainha tocar. Imaginou que fosse um dos filhos, embora todos tivessem a chave da casa. Abriu a porta.
Um homem segurando um enorme buquê de rosas brancas estava ali. Mesmo após tantos anos, o sorriso ainda era o mesmo.
— Você veio — ela disse, a voz quase um sussurro.
Ele sorriu:
— Você me convidou.

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