Ana Clara tinha dez anos quando seu irmão, Paulo, desapareceu. Ele havia ido para um acampamento organizado pela escola, com vários colegas e alguns professores, e todos retornaram para casa — menos ele.

Para a polícia, os colegas disseram que Paulo havia saído sozinho à noite, às escondidas. Para os amigos mais próximos, ele havia contado que ia tentar pegar um Saci — e nunca mais voltou.
Todos acreditavam que ele tivesse se perdido na mata e talvez até morrido por lá, mas seu corpo jamais foi encontrado.
Para Ana Clara, que sempre fora fascinada pelas histórias do Saci-Pererê, que conhecera nos livros antigos da mãe — histórias bonitas, embora hoje ela soubesse que nem tudo nelas era justo com todos os personagens —, talvez o irmão tivesse realmente encontrado o Saci ou alguma outra criatura misteriosa — e não tivesse conseguido voltar.
Ela queria muito procurá-lo, mas seus pais, temendo que algo também acontecesse com ela, a obrigavam a usar um bracelete com rastreador, que fazia soar um alarme no celular deles caso ela o retirasse.
Além disso, morando em Teresina, sabia que ali não encontraria nem Sacis nem nenhum outro ser mágico. Imagina se o Saci estaria andando no forno asfaltado que era Teresina, né? Nem pensar — ele com certeza preferia estar em lugares ao ar livre, perto de matas e riachos, onde o vento faz cócegas nas folhas e o cheiro de terra molhada se mistura ao de flores silvestres.

A garota tinha doze anos quando, finalmente, surgiu uma oportunidade de procurar pelo irmão e pelo menino travesso de uma perna só: iria passar uma semana de férias em um sítio no interior do Maranhão, entre as cidades de Timon e Caxias — um lugar com muita mata, um belo riacho de águas claras e geladas, e nada de asfalto. O mais importante: era próximo ao local do desaparecimento do irmão. Mais animada do que ela estava, impossível!
Ela e os pais chegaram ao sítio na sexta-feira à noite. O som dos grilos e dos sapos parecia um coral, embalando o sono dos visitantes. Ficariam ali até o domingo da semana seguinte, então Ana Clara teria oito dias inteiros para procurar o Saci.
E não estava sozinha nessa aventura: seus primos João Gabriel e Mara Beatriz estariam lá também. Já tinham até combinado tudo para capturar o Pererê: Ana Clara conseguira a peneira, Mara Beatriz a garrafa com tampa de rolha marcada com uma cruz, e João Gabriel seria o corajoso responsável por entrar no redemoinho. Tudo certo e acertado.

Depois de passarem o sábado explorando o lugar — o cheiro de fruta madura no pomar, o barulho das folhas sendo pisadas, o som distante da água batendo nas pedras —, decidiram tentar no domingo, em um ponto próximo ao riacho onde, diziam, costumavam surgir redemoinhos do nada. Claro que era o Saci, pensaram.
Ana Clara, porém, havia deixado claro qual era seu objetivo: pegariam o Saci e perguntariam por Paulo — e só isso.
— Vocês gostariam de ser presos em uma minúscula garrafa? Eu acho que não. Então por que manter o pobre Saci preso? — disse ela. — Se não fosse pela esperança de encontrar meu irmão, eu nem faria isso. Estamos combinados? Nós o pegamos, perguntamos se ele sabe de algo e o soltamos, certo?
João Gabriel resmungou:
— E se ele não quiser responder?
— Nós o soltamos do mesmo jeito. Talvez ele nos ajude se sentir que não queremos fazer mal — respondeu Ana Clara, firme.
Os primos concordaram, embora a contragosto. João Gabriel queria muito ver os seres mágicos da floresta, mas sabia quanto a prima sofria com a ausência do irmão.
No domingo, logo após o café da manhã, os três se dirigiram às margens do riacho. O sol brilhava forte, e o ar cheirava a capim quente. Um pouco antes de meio-dia, viram um redemoinho se formando — primeiro uma leve dança de poeira, depois um turbilhão dourado e avermelhado, girando com um som de assobio e risadinhas que pareciam vir do vento. João Gabriel se posicionou, colocou a peneira e a garrafa e… PAM! Saci capturado! E o garoto, triunfante, com a carapuça vermelha do Pererê nas mãos.
As crianças pularam e se abraçaram, rindo e gritando de alegria.
O Saci, porém, não apareceu de imediato — a garrafa parecia vazia. Mas a carapuça no bolso do garoto era prova de que ele estava ali. Voltaram para o almoço e, depois, se deitaram debaixo de uma mangueira no pomar, onde o ar era fresco e o chão exalava cheiro de folhas e manga madura.
Foi então que algo começou a se mexer dentro da garrafa: um vulto escuro, uma fumacinha girando. E uma voz saiu lá de dentro, meio irritada:
— Ah, não! De novo, não! Será que eu nunca vou poder tirar um cochilo tranquilo sem cair em uma garrafa? — resmungou o Saci, espirrando. — E pra piorar, essa garrafa cheira a doce de goiaba! Vocês querem me adoçar ou me prender? Vocês não têm outra coisa pra fazer, não?

Mara Beatriz e João Gabriel se assustaram, mas Ana Clara respondeu com calma:
— Como assim, de novo? E temos muito o que fazer, sim, senhor Saci — mas queríamos muito lhe pedir um favor.
O Pererê, percebendo que eram crianças da cidade — dava pra ver pelas roupas e pela curiosidade no olhar —, se acalmou um pouco:
— Vocês me prendem e ainda querem me pedir um favor? Ora essa! Pois me soltem, e eu decido se atendo ou não vocês. Não faço favores a quem me sequestra desse jeito!
Depois de um suspiro, completou com humor:
— Desde que aquele escritor lá, o tal do Lobato, resolveu contar minhas aventuras, não tenho mais sossego! Vim pro Maranhão me esconder, mas vocês me acharam mesmo assim. Daqui a pouco vou ter de morar dentro de uma garrafa d’água no rio Itapecuru!
Ana Clara pediu ao primo que lhe entregasse a carapuça. João Gabriel hesitou:
— Se ele fugir e não ajudar, não diga que a culpa foi minha.
Mara Beatriz interveio:
— A prima tem razão, mano. Afinal, foi o irmão dela que desapareceu. Se o Saci não ajudar, pelo menos tentamos.
Ana Clara, com a carapuça na mão, dirigiu-se ao Pererê:
— Vou lhe soltar e lhe devolver a carapuça. Perdoe a gente por ter feito isso, eu sei que não foi certo. Mas o senhor é minha única esperança de saber o que aconteceu com meu irmão.
Ela abriu a garrafa e entregou a carapuça ao Saci, que a colocou imediatamente na cabeça. Tornando-se do tamanho das crianças, para poder conversar melhor, ele pediu a Ana Clara que explicasse a história do irmão — e ela contou tudo.
O Saci ficou pensativo por alguns minutos, então falou:
— Sei que nós, Sacis, não pegamos crianças humanas, mas ouvi dizer que a Cuca está com um garoto lá com ela. Talvez ele tenha se perdido… ou perdido a memória. Ela não gosta de humanos, mas pode tê-lo acolhido se ele não soubesse o caminho de volta. Vou lá ver, e também vou perguntar aos outros seres. Se alguém souber de algo, eu descubro. Quanto tempo vocês ficam por aqui?

— Mais seis dias. No domingo depois do almoço voltamos pra Teresina — respondeu Ana Clara.
— Pois bem. Venham aqui sempre nesse horário nos próximos seis dias. Se eu não aparecer, é porque não tive notícias. E evitem ir pra perto da mata ou do riacho. Os seres mágicos já devem saber que vocês pegaram um Saci — e isso não é brincadeira.
Logo ele desapareceu em um redemoinho.
João Gabriel resmungou:
— Acho que esse aí não volta mais.
— Pois eu acho que volta — afirmou Ana Clara. — Ele poderia ter sumido logo que devolvi a carapuça, mas ficou e me ouviu. Tenho certeza de que vai voltar — e me dizer o que aconteceu com meu irmão, seja bom ou ruim.
Nos dias seguintes, as crianças aproveitaram ao máximo o sítio: as árvores frutíferas, a comida gostosa e os animais que só conheciam de longe. Mesmo que a resposta do Saci não fosse boa, os dias foram cheios de pequenas aventuras — pegar ovos no galinheiro, andar de carroça puxada por um jumento, observar o pôr do sol refletido na água do riacho.

Sempre depois do almoço iam para o pomar, esperar o Pererê. No sábado — a última oportunidade —, Ana Clara estava mais ansiosa do que nunca, com medo de voltar para casa sem respostas.
Estavam os três deitados sob a mangueira quando sentiram o vento mudar, o redemoinho se formar… e o Saci surgir. Mas ele não estava só. Com ele, vinha um menino que Ana Clara reconheceu de imediato.
— Paulo? É você?!
O garoto parecia confuso. Viu a irmã correr em sua direção e, de repente, parecia despertar de um sonho.
— O que houve? Por que você está aqui? Onde estão meus colegas do acampamento?
O Saci explicou:
— Ele quase caiu sob o feitiço da Iara. Foi a Cuca que o salvou, mas ele ficou sem memória, então ela não sabia para onde enviá-lo. Ela não se aproxima de humanos — vocês são muito perigosos pra nós.
— Ele vai ficar bem? — perguntou Ana Clara.
— Acho que sim. Ao ver você, a memória dele está voltando. Logo vai ficar bem, mas não se lembrará de nada do que viu na mata. É melhor assim — por ele e por nós. Devo ir agora.
— Espere! — exclamou a menina, correndo até o Saci e abraçando-o. — Muito obrigada, e me perdoe por ter lhe capturado. Nunca mais farei isso. Como posso lhe agradecer?
O Saci sorriu:
— Apenas não conte a ninguém sobre mim. Não sei como vocês vão explicar a volta do seu irmão, mas não me mencionem. E não deixe seus primos contarem, combinado?
— Combinado! Certo, meninos? — perguntou Ana Clara.
A contragosto, mas sem escolha, os dois assentiram. Paulo, ainda atônito, deixou-se guiar pela irmã de volta à casa grande do sítio, onde estavam os adultos.
Os pais de Ana Clara não conseguiam acreditar no que viam. A menina contou que estavam no pomar e, de repente, o irmão apareceu, desorientado, procurando pelos colegas do acampamento.

De volta a Teresina, Paulo passou por vários exames médicos. Estava desidratado, mas sem outros problemas aparentes. Apenas a memória dos dois anos que passara na mata nunca voltou, por mais que tentasse.

Ana Clara só conseguia ser grata ao Saci. Sabia que talvez nunca mais o visse, mas guardava a esperança de um dia poder lhe agradecer de verdade — não com palavras, mas com a certeza de que aprendera a ver o invisível com o coração. João Gabriel e Mara Beatriz não se lembravam da aventura. Talvez o menino travesso os tivesse enfeitiçado para esquecer — e Ana Clara achava que era melhor assim.


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