Jean Rhys (1890–1979) nasceu na ilha de Dominica, no Caribe, então parte do Império Britânico, filha de mãe crioula e pai galês — uma origem que marcaria profundamente sua obra. Cresceu entre culturas, línguas e pertencimentos conflitantes, experiência que lhe deu uma percepção aguda das violências coloniais, das hierarquias raciais e da marginalização feminina. Ao mudar-se ainda jovem para a Inglaterra, descobriu que não era vista como britânica o suficiente, tampouco suficientemente “colonial” para caber nos estereótipos exóticos esperados pelo olhar imperial. Essa condição de entrelugar — nem totalmente aceita, nem totalmente nomeável — atravessa toda a sua escrita. Quando publicou Wide Sargasso Sea em 1966, após décadas de silêncio literário, Rhys realizou não apenas um gesto estético brilhante, mas também um acerto de contas histórico: deu voz, corpo e consciência a uma mulher caribenha que a tradição literária inglesa havia reduzido a caricatura. A vida e a obra de Rhys iluminam de modo visceral o apagamento colonial que ela enxergou em Jane Eyre e que decidiu reescrever a partir de dentro.

Jean Rhys. Fotografia da contracapa do livro Jean Rhys: The Complete Novels. Foto: Maria Baptista, 2026.

Li Wide Sargasso Sea no mesmo ano em que li Jane Eyre, e talvez por isso o impacto tenha sido tão profundo. Sempre me espantou como Charlotte Brontë consegue dar uma voz tão poderosa, tão luminosa e tão firme a sua heroína — e ao mesmo tempo silenciar de maneira tão absoluta outra mulher dentro do mesmo romance. Jane conta a própria história com autonomia e clareza; Bertha, porém, é transformada em sombra. É descrita, interpretada, explicada e enfim aprisionada pelos outros — especialmente por Rochester.

A passagem em que Rochester revela a identidade da esposa trancada no sótão é uma das mais violentas de todo o romance — e foi exatamente aqui que Jean Rhys encontrou o ponto de ruptura que a levaria a escrever Wide Sargasso Sea. Rochester diz:

Agora lhes informo que ela é minha esposa, com quem me casei há quinze anos — Bertha Mason é seu nome… Bertha Mason é louca; e veio de uma família de loucos — idiotas e maníacos por três gerações! Sua mãe, a crioula, era ao mesmo tempo louca e bêbada — como descobri depois de ter me casado com a filha; pois antes disso haviam mantido silêncio sobre os segredos da família. Bertha, como filha obediente, imitou a mãe em ambos os pontos (Brontë, 1994, p. 290).

Essa é praticamente toda a história de Bertha em Jane Eyre: um parágrafo dito por um homem profundamente interessado em reduzir a esposa à condição de obstáculo trágico para o amor de Jane. O que sempre me chamou atenção, ainda na primeira leitura, é a forma como esse discurso de Rochester condensa uma visão colonial típica da Inglaterra vitoriana: a ideia de que alguém nascido no Caribe, misturado, sensual ou “excessivo”, estaria condenado à degeneração. Bertha — ou melhor, Antoinette — não é branca, não é europeia, não corresponde ao ideal de feminilidade vitoriana. Logo, é tratada como menos humana.

É impossível ler essa descrição hoje — e já me era impossível em 1994 — sem sentir a força do racismo colonial, da misoginia e da brutalidade moral vitoriana condensadas em poucas linhas. Bertha é “a crioula”, um corpo que não se encaixa nos padrões ingleses de branquitude; uma mulher cuja sexualidade, ancestralidade e diferença cultural são reescritas como degenerescência. Rochester não a descreve como pessoa, mas como herança defeituosa.

Jean Rhys leu essa cena, sentiu essa violência, e fez algo extraordinário: devolveu a humanidade à mulher que Brontë havia transformado em monstro. Em Wide Sargasso Sea, Bertha volta a ser Antoinette Cosway, uma jovem cuja identidade é despedaçada justamente pelo homem que, em Jane Eyre, tenta justificar sua prisão. Ele não apenas a enclausura — ele a renomeia, apaga sua língua, sua cultura, sua história. Antoinette tenta resistir a essa violência e diz:

Bertha não é meu nome. Você está tentando me transformar em outra pessoa, me chamando por outro nome. Eu sei, isso também é feitiçaria (Rhys, 1985, p. 548, tradução minha).

Rhys entendeu que a “loucura” de Bertha em Jane Eyre não era uma condição natural: era o resultado de um processo brutal de apagamento. E, ao escrever Wide Sargasso Sea, ela dá à personagem tudo aquilo que Brontë lhe negou — voz, desejo, memória, dor, pertencimento. É um ato de reparação literária, mas também histórica: Rhys descoloniza o romance vitoriano a partir de dentro.

Antoinette, ao narrar sua própria experiência, revela a ferida profunda do não pertencimento colonial. Ela diz:

Então, entre nós, muitas vezes me pergunto quem sou, onde fica meu país, a que lugar pertenço e por que nasci, afinal (Rhys, 1985, p. 519, tradução minha).

Nunca deixei de amar Jane; ela continua sendo uma referência para mim, uma personagem que marcou minha vida. Mas é impossível ignorar que, na construção de sua autonomia, outra mulher é sacrificada, silenciada e desumanizada. Jean Rhys percebeu isso antes de todos nós — percebeu porque era do Caribe, porque conhecia por dentro o olhar imperial que transforma o “outro” em caricatura. Wide Sargasso Sea nasce dessa percepção, dessa ferida histórica.

O gesto literário de Rhys é extraordinário: ela devolve à “louca do sótão” aquilo que Brontë lhe tomou — voz, passado, desejo, subjetividade. Mostra Antoinette como uma mulher sofrida, marcada pela violência colonial, pela perda, pela solidão, e não como o monstro que o olhar britânico preferiu enxergar. Em certo momento, já na Inglaterra, a personagem pergunta:

Não há espelho aqui e eu não sei como sou agora… O que estou fazendo neste lugar e quem sou eu? (Rhys, 1985, p. 568, tradução minha).

São perguntas que condensam o apagamento identitário que o romance torna impossível ignorar.

A partir do romance de 1966, torna-se impossível ler Jane Eyre da mesma maneira. Rhys não destrói Brontë; pelo contrário, amplia sua obra, fazendo com que vejamos o que estava escondido nas margens e nas sombras.

E talvez seja essa a verdadeira grandeza de Wide Sargasso Sea: permitir que duas narrativas coexistam — a da jovem inglesa que aprende a dizer “não”, e a da jovem caribenha que nunca teve a chance de ser ouvida. A leitura de Jane Eyre em 1994 foi transformadora — mas, naquele mesmo ano, quando li Wide Sargasso Sea, percebi algo que até então eu não tinha entendido com clareza: a mesma Charlotte Brontë que deu voz tão poderosa a Jane Eyre também silenciou completamente outra mulher. E esse silêncio não era neutro. Ele tinha cor, classe, geografia, colonialismo.

Publicado originalmente em 1966, Wide Sargasso Sea ainda não se encontra em domínio público. A obra pode ser adquirida em sua edição original em inglês, bem como na tradução brasileira Vasto Mar de Sargaços, publicada pela editora Rocco.

Aqui algumas sugestões de sites nos quais você pode adquirir este livro:

Em Inglês: Amazon, Barnes & Noble, ou outra de sua preferência.

Em Português: Estante Virtual, Amazon, ou outra que lhe agrade mais.

Leituras Indicadas

Charlotte Brontë – Jane Eyre – A leitura do romance vitoriano torna-se inevitavelmente outra após Rhys; uma obra fundamental cuja força cresce quando confrontada com aquilo que ela mesma silencia.

Toni Morrison – Beloved – Uma reflexão profunda sobre memória, trauma histórico e os fantasmas persistentes da escravidão e do passado colonial.

Jamaica Kincaid – See Now Then – Romance sobre memória, tempo e dissolução conjugal, em que a experiência íntima ecoa as fraturas do pertencimento e do deslocamento.

Toni Morrison – The Bluest Eye – Romance sobre raça, identidade e os padrões de beleza impostos por uma cultura dominante, revelando a violência simbólica da branquitude normativa.

Monique Mojica – Princess Pocahontas and the Blue Spots – Dramaturgia indígena que desmonta mitos coloniais sobre o corpo feminino nativo e confronta narrativas imperiais da América do Norte.

Elizabeth Nunez – Prospero’s Daughter – Releitura caribenha de The Tempest, em que a filha de Próspero deixa de ser símbolo passivo para tornar-se consciência crítica do colonialismo.

Margaret Atwood – The Penelopiad – A voz de Penélope — e das criadas enforcadas — revisita a épica homérica com ironia, inteligência e uma aguda consciência das ausências do texto original.


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