Escrevi este conto em 2006, como parte da avaliação da disciplina Literatura Infantojuvenil, ministrada no curso de Pedagogia. A proposta da professora era reescrever um conto clássico, dando-lhe nova forma, novo contexto e nova voz.
Escolhi Chapeuzinho Vermelho, não apenas por sua força simbólica, mas porque vi nela a oportunidade de trazê-la para mais perto de nós — sob o sol quente de Teresina, entre ônibus, feirinhas e afetos cotidianos.
Esta história nasceu, portanto, do incentivo da professora, da curiosidade de estudante e do desejo de mostrar que até os contos mais antigos podem vestir roupa nova, sem perder a alma.

Dia quente, que calor! Nunca Teresina lhe parecera tão quente quanto naquele setembro. Péssimo momento para ficar doente. A avó Liliana detestava ficar de cama, mas o médico havia recomendado repouso absoluto, e nem o ar-condicionado parecia resolver.
Depois de muito hesitar, decidiu que seria bom ter companhia. Morava sozinha, e doente como estava, não tinha como cuidar da casa — o que, aliás, nunca fora seu forte. Pegou o telefone e ligou para a neta, perguntando se ela poderia vir visitá-la e dar uma arrumada geral, antes que o lar se tornasse um pandemônio.
Camila concordou prontamente. A avó morava longe, num sítio depois da Usina Santana, e para chegar lá ela teria de escolher entre pegar dois ônibus — descendo já perto do portão — ou pegar apenas um e caminhar umas cinco quadras quase desertas.
A mãe, sempre temerosa, sugeriu que pegasse os dois ônibus, mas Camila decidiu economizar uma passagem: pegaria apenas um, que a deixaria perto da feirinha. Assim, poderia comprar algo gostoso e útil para a avó.
Como estudava pela manhã, Camila só pôde ir durante a tarde. Devido ao calor intenso e ao sol causticante, colocou um pequeno chapéu de crochê vermelho que a avó lhe dera, comprado em Fortaleza durante um dos muitos congressos que frequentava.Quando desceu do ônibus, o sol já começava a se pôr. “Menos mal”, pensou. “Pelo menos não pego tanto sol — e como amanhã é sábado, posso dormir por aqui mesmo.”
Parou em uma barraca e comprou um arrumadinho bem temperado, além de arroz, feijão verde, farinha, carne de sol, cheiro-verde e frutas frescas — coisas simples que ela deixaria prontas para a avó aquecer depois. Sabia bem que dona Liliana, sempre ocupada com a escolinha que fundara após se aposentar da universidade, vivia de besteiras compradas às pressas. Pegou a sacola e seguiu caminho.

Ao passar pela terceira quadra, percebeu que não estava sozinha. Um rapaz vinha seguindo o mesmo percurso. Sem medo — e achando que conversar ajudaria o tempo a passar mais rápido — aproximou-se dele. O rapaz, simpático, puxou conversa:
— Pra onde vai uma moça sozinha, a essa hora e nesse lugar deserto?
— Pra casa da minha avó — respondeu ela, sorrindo.
— Ah, é? Então posso chamá-la de Chapeuzinho Vermelho?
Camila riu:
— Pode… mas espero que você não seja o lobo!
Os dois seguiram juntos, conversando até chegarem à casa de Liliana, que os esperava sentada na varanda, ansiosa. A menina entregou as compras, apresentou o rapaz — Adolfo — e a avó o convidou para entrar e tomar um café, mesmo com todo aquele calor.

Começou assim uma amizade que logo virou namoro. Camila continuou a visitar a avó até que ela se recuperasse por completo. Quando Liliana retomou suas atividades na escolinha, avisou à neta que não precisava mais vir todos os dias.
Camila sorriu, ajeitou o chapéu vermelho e respondeu:
— Ora, vovó… eu tenho muitas outras razões pra vir aqui.

Referências ao conto original
Se você deseja conhecer o conto clássico que inspirou esta releitura, segue o link para a versão original em francês, Le Petit Chaperon rouge, de Charles Perrault (1697), em domínio público:
https://mespetitesrevues.com/wp-content/uploads/2020/04/contes_de_perrault_c3a9d._1902_le_petit_chaperon_rouge.pdf
Disponibilizo também uma versão em português, baseada no texto de Perrault, igualmente em acesso livre:
https://aulasdathaisunitau.com/wp-content/uploads/2019/03/cv_perrault.pdf

Deixe um comentário