Este texto propõe um breve reencontro com uma autora que a história literária brasileira tentou silenciar. Ao revisitar a trajetória de Julia Lopes de Almeida e a leitura de um de seus contos mais emblemáticos, abre-se espaço para refletir sobre apagamento, exclusão e a persistente atualidade de sua escrita.

Julia Lopes de Almeida: prestígio, apagamento e redescoberta.

Julia Lopes de Almeida (1862–1934) foi uma das escritoras mais importantes do Brasil no final do século XIX e início do XX, reconhecida em sua época como romancista, contista, cronista e voz ativa no debate público sobre educação, direitos das mulheres e questões sociais. Publicou em grandes jornais, circulou entre intelectuais influentes e chegou a ser cotada para integrar a fundação da Academia Brasileira de Letras — de onde acabou excluída por ser mulher. Apesar de sua vasta produção e prestígio contemporâneo, Julia foi gradualmente apagada da historiografia literária brasileira, reduzida a notas de rodapé enquanto colegas homens menos prolíficos permaneciam em evidência. Nas últimas décadas, porém, sua obra tem sido redescoberta e revalorizada, revelando uma escritora sofisticada, crítica e muito à frente de seu tempo.

Júlia Lopes de Almeida, Public domain, via Wikimedia Commons

O apagamento na formação literária

É curioso — e um pouco vergonhoso — perceber que, mesmo tendo feito graduação em Letras, eu não estudei Julia Lopes de Almeida. Isso diz muito menos sobre mim e muito mais sobre o apagamento que ela sofreu. Julia conviveu com nomes centrais da literatura, chegou a dançar com Machado de Assis numa dessas festas literárias de época, e participou das conversas que levaram à criação da Academia Brasileira de Letras. Ainda assim, foi deixada de fora da lista de fundadores por um motivo simples e brutal: era mulher. É difícil não pensar em como a história literária seria diferente se ela tivesse ocupado o lugar que lhe cabia desde o início.

Academia Brasileira de Letras
Wolfhardt, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

“A Caolha” e a força da síntese

Entre seus muitos contos, “A Caolha” talvez seja um dos mais impactantes justamente porque condensa, em poucas páginas, a força crítica que marcou sua escrita

A mutilação social como núcleo do conto

Ler “A Caolha” é reencontrar aquele tipo de narrativa que, mesmo breve, permanece na memória como uma espécie de ferida aberta. Julia Lopes de Almeida constrói sua protagonista a partir de uma falta visível — a perda de um olho —, mas o conto rapidamente revela que a verdadeira mutilação é social, não física. A caolha é menos marcada pela deficiência do que pela maneira como os outros a enxergam: com desprezo, indiferença ou crueldade.

Capa da edição original de Ânsia Eterna (H. Garnier, 1903), no qual se encontra o conto “A Caolha”. Disponível em domínio público por meio da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin.

O corpo visto como monstruoso

Como a própria narradora descreve logo no início, o corpo da personagem é percebido como algo monstruoso antes mesmo que se saiba qualquer coisa sobre ela:

O seu aspecto infundia terror às crianças e repulsão aos adultos; não tanto pela sua altura e extraordinária magreza, mas porque a desgraçada tinha um defeito horrível: haviam-lhe extraído o olho esquerdo; a pálpebra descera mirrada, deixando, contudo, junto ao lacrimal, uma fístula continuamente porejante (p. 83).

É essa inversão que faz do texto um retrato tão agudo da desigualdade e do abandono.

O olhar como símbolo moral

Um dos méritos do conto é transformar o olhar em símbolo. O olho ausente da personagem parece denunciar a falha moral daqueles que a cercam. Quem realmente não vê? Quem tem um olho a menos ou quem, tendo dois, escolhe desviar o olhar? A pergunta não é feita de modo explícito, mas é impossível não senti-la pulsando nas entrelinhas. Julia constrói ali uma crítica à sociedade brasileira da virada do século XX — uma sociedade hierarquizada, patriarcal, habituada à miséria — que, longe de datada, soa perturbadoramente atual.

Vergonha e violência nas relações familiares

Essa visão distorcida da personagem se manifesta até mesmo nas relações mais íntimas, como quando o próprio filho passa a sentir vergonha da mãe:

O Antonico pediu à mãe que o não fosse buscar à escola; e, muito vermelho, contou-lhe a causa: sempre que a viam aparecer à porta do colégio os companheiros murmuravam injúrias, piscavam os olhos para o Antonico e faziam caretas de náuseas! (p. 85).

Corpo feminino, vulnerabilidade e exclusão

Há também uma dimensão feminina que merece destaque. A caolha não é apenas pobre e marginalizada; ela é mulher num mundo em que a vulnerabilidade feminina é explorada sem pudor. Seu corpo, sua sobrevivência e sua dignidade são negociados como algo que não lhe pertence. Julia Lopes de Almeida, com sua delicadeza firme, expõe o lugar perigoso reservado às mulheres que fogem do padrão, que não apresentam beleza, docilidade ou utilidade social.

Afeto raro e felicidade mínima

Ainda assim, pequenos gestos de afeto bastam para iluminar sua vida de maneira quase trágica, como na cena em que recebe do filho um raro instante de carinho:

Aquele beijo foi para a infeliz uma inundação de júbilo! tornava a encontrar o seu querido filho! pôs-se a cantar toda a tarde, e nessa noite, ao adormecer, dizia consigo:

– Sou muito feliz… o meu filho é um anjo! (p. 86).

Um espelho incômodo para o leitor

“A Caolha” continua sendo um conto poderoso justamente porque recusa a catarse fácil. Não oferece consolo, nem redenção — apenas a verdade crua de uma mulher reduzida ao que os outros veem (ou decidem não ver). Em poucas páginas, Julia devolve ao leitor um espelho incômodo. E, ao contrário da personagem, esse espelho nos obriga a ver — ou pelo menos a tentar.

Texto completo: “A Caolha” integra a coletânea Ânsia Eterna (1903). Você pode ler o conto na edição digital da Coleção Escritoras do Brasil (Biblioteca do Senado) — veja a partir da página 83, no link: https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/580577/Ansia_Eterna_2ed.pdf

Outros textos da autora:

O textos abaixo são todos de domínio público.

A viúva Simões – Romance que retrata com ironia e sensibilidade a condição feminina, as convenções sociais e os limites impostos às mulheres na sociedade urbana do final do século XIX.

Memórias de Martha – Narrativa em tom autobiográfico que acompanha a formação moral e intelectual de uma jovem mulher, revelando conflitos íntimos, desigualdades sociais e expectativas de gênero.

A falência – Romance de forte crítica social que expõe a decadência econômica e moral de uma família burguesa, destacando o papel da mulher diante do colapso financeiro e afetivo.

Leituras Indicadas

Abaixo, alguns títulos que dialogam bem com o conto discutido acima. Ao clicar em cada título, você será direcionado ao texto em domínio público, quando for o caso, ou a um site de vendas, indicado apenas como referência — já que o livro pode ser adquirido na livraria de sua preferência.

Maria Firmina dos Reis — Úrsula (1859)
Romance fundamental da literatura brasileira, que antecipa debates sobre opressão, violência e desumanização, dando voz a sujeitos historicamente silenciados.

Lygia Fagundes Telles — As meninas (1973)
Embora em outro contexto histórico, a obra aprofunda a experiência feminina sob pressão social, explorando culpa, medo e vulnerabilidade com grande densidade psicológica.

Clarice Lispector — “A imitação da rosa” (em Laços de Família – 1998)
Um conto em que o cotidiano revela fissuras profundas na subjetividade feminina, dialogando com a ideia de normalidade imposta e sofrimento silencioso.

Carolina Maria de Jesus — Quarto de Despejo (1960)
Um olhar cru e direto sobre pobreza, exclusão e dignidade, escrito a partir de quem vive a margem — leitura incômoda e necessária.

Conceição Evaristo — “Maria” (em Olhos d’Água – 2015)
Conto breve e devastador que, assim como “A Caolha”, expõe como o corpo feminino pobre é alvo de violência simbólica e material.


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