Como eu conheci Maria Firmina dos Reis

Durante toda a minha trajetória como estudante de Letras, o nome de Maria Firmina dos Reis me era totalmente desconhecido. Posso justificar essa ausência no mestrado e no doutorado, já que meu foco em ambos era literatura de língua inglesa. Mas como explicar isso na graduação, realizada entre 1978 e 1982?

Tenho duas teorias sobre isso, meramente especulativas:

  1. Durante o regime militar, somente textos aprovados pelo governo eram ensinados e/ou discutidos em sala de aula, e dificilmente um texto escrito por uma mulher negra no século XIX estaria entre os “grandes autores” considerados dignos de estudo.
  2. Maria Firmina dos Reis era maranhense e nunca saiu de seu estado. Naquele tempo, como agora, autores do Rio de Janeiro e São Paulo eram automaticamente considerados “nacionais”. Já escritores de outros estados — sobretudo mulheres e negros — muitas vezes eram reduzidos ao rótulo de “regionais”.

Em 2006, a professora Algemira Mendes, colega minha na UESPI, defendeu sua tese de doutorado sobre duas escritoras: a maranhense Maria Firmina dos Reis e a piauiense Amélia Beviláqua. Foi por intermédio dela que ouvi falar de Úrsula pela primeira vez. Em 2007, comprei o livro e pude, enfim, sentir a força dessa narrativa.

A mulher por trás do marco literário

Por Ramsessantos – Obra do próprio, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=135619904

Maria Firmina dos Reis nasceu no Maranhão em 1822 – coincidentemente o ano em que o Brasil se tornou independente de Portugal – e morreu em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, um período conturbado tanto para o país quanto para o mundo. Filha de uma escravizada liberta, não sofreu na própria pele as violências da escravidão, mas certamente testemunhou, desde cedo, o que esse regime causava aos seus conterrâneos.

Tornando-se professora das primeiras letras em 1847, Maria Firmina fundou, em Maçaricó, próximo a Guimarães (MA), uma escola mista e gratuita para alunos que não podiam pagar — ação inovadora e afinada com as lutas feministas do final do século XIX pela igualdade de acesso ao ensino.

Em 1859, publicou Úrsula, romance considerado o primeiro publicado por uma mulher no Brasil. Lançado sob o pseudônimo “Uma maranhense”, o livro só recebeu nova edição — fac-similar — em 1975, organizada por Horácio de Almeida. Reconhecido como precursor da temática abolicionista na literatura brasileira, Úrsula antecede tanto a poesia de Castro Alves quanto o conto “As vítimas-algozes”, de Joaquim Manuel de Macedo.


Essa força já aparece logo nas primeiras páginas do romance, quando a narradora exclama:

Coitado do escravo! Nem o direito de arrancar do imo peito um queixume de amargurada dor!!.. (p. 22)

Sei que muitos já ouviram o nome da autora, mas quantos realmente leram o primeiro romance brasileiro escrito por uma mulher?

O enredo e o estilo: romantismo com consciência social

Úrsula é uma obra pioneira em todos os sentidos. A narrativa acompanha o amor entre Úrsula e Tancredo, dois jovens que enfrentam tragédias, segredos e a tirania de Fernando P., tio da protagonista — símbolo do poder patriarcal e da crueldade que permeava a sociedade brasileira da época. Com traços do romantismo, o livro mistura emoção, destino e crítica social de forma surpreendente para seu tempo.

Essa denúncia também se manifesta na própria voz do narrador, que condena a brutalidade da escravidão:

É horrível lembrar que criaturas humanas tratem a seus semelhantes assim e que não lhes doa a consciência. (p. 117)

Mas o que torna Úrsula realmente único é o olhar compassivo e revolucionário que Maria Firmina dedica às personagens negras e escravizadas, como Túlio e Suzana. Suas vozes, antes silenciadas na literatura, revelam o sofrimento e a força de quem vive sob opressão. Suzana resume a gravidade de sua condição em poucas palavras:

Ah, senhor! Que coisa triste é a escravidão! (p. 169)

Ao mesmo tempo, o romance oferece reflexões éticas que atravessam a experiência humana para além da escravidão, como nesta advertência que o padre faz a Fernando P.:

A vingança, filho, é um prazer amargo, e seu fruto é o requeimar do remorso em toda a existência, até o último extremo, até a sepultura (p. 194).

Ler Úrsula hoje é redescobrir uma autora que escreveu com coragem, sentimento e consciência — e que ainda tem muito a dizer ao nosso presente.

Por que precisamos ler Maria Firmina agora

Redescobrir Maria Firmina dos Reis não é apenas um gesto de reparação histórica: é um convite para reencontrarmos a literatura brasileira em toda a sua diversidade, sensibilidade e potência crítica. Úrsula abre caminho para uma tradição que o país demorou demais a reconhecer — a tradição de mulheres negras que escrevem, denunciam, imaginam e transformam.

Ao voltar nossos olhos para essa voz que o Brasil tentou esquecer, não apenas ampliamos nossa compreensão do passado, mas também construímos um presente literário mais justo, plural e verdadeiro. Maria Firmina nos recorda que a literatura pode ser resistência, memória e afeto — tudo ao mesmo tempo — e que algumas narrativas continuam ecoando porque nasceram para não se calar.

Para quem desejar se aprofundar, a tese de doutorado de Algemira de Macêdo Mendes, intitulada Maria Firmina dos Reis e Amélia Beviláqua na história da literatura brasileira: representação, imagens e memórias nos séculos XIX e XX, está disponível gratuitamente no repositório da PUCRS, no link: https://tede2.pucrs.br/tede2/handle/tede/2230#preview-link0

A edição digital de Úrsula publicada na coleção Acervo Brasileiro, do projeto Cadernos do Mundo Inteiro (2018), está disponível gratuitamente sob licença CC-BY-SA 2.5 no link: https://cadernosdomundointeiro.com.br/pdf/Ursula-2a-edicao-Cadernos-do-Mundo-Inteiro.pdf

Imagem gerada com auxílio de IA

Leituras indicadas

Abaixo, alguns títulos que dialogam bem com o livro discutido acima. Ao clicar em cada título, você será direcionado ao texto em domínio público, quando for o caso, ou a um site de vendas, indicado apenas como referência — já que o livro pode ser adquirido na livraria de sua preferência.

  • Maria Firmina dos Reis – A escrava
    Um conto breve e contundente, no qual a autora reafirma sua recusa à naturalização da violência e aprofunda o gesto ético que já atravessa Úrsula.
  • Amélia Beviláqua – Angústia
    Romance de uma contemporânea de Maria Firmina, hoje pouco lida, mas essencial para compreender as possibilidades da escrita feminina no Brasil oitocentista.
  • Carolina Maria de Jesus – Quarto de despejo
    A distância temporal não apaga o diálogo: aqui também uma mulher negra escreve o país a partir das margens, transformando experiência em denúncia.
  • Conceição Evaristo – Olhos d’água
    Contos que, em outra chave histórica e estética, continuam a fazer da literatura um espaço de memória, resistência e afeto.
  • Algemira de Macêdo Mendes – Maria Firmina dos Reis e Amélia Beviláqua na história da literatura brasileira
    Leitura crítica fundamental para quem deseja compreender os apagamentos — e as retomadas — dessas vozes na história literária brasileira.

2 respostas a “Maria Firmina dos Reis: a voz que o Brasil esqueceu — e que precisamos ouvir”

  1. Avatar de Virginia
    Virginia

    Amei! Já baixei o livro usando o link que você compartilhou. Obrigada por nos apresentar essa escritora!

    1. Avatar de Maria
      Maria

      Obrigada!!!

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